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No Sul do Brasil, por Fábio Rodrigo



A encenação começa. Jovens atores representam uma família de italianos que chega ao Brasil no final do século XIX. O cenário, nada cinematográfico, o figurino pitoresco e o italiano macarrônico demonstram uma cena burlesca. A chegada dos imigrantes é retratada em uma narrativa romantizada e folclórica, que foge completamente a qualquer análise crítica e mais aprofundada.

Antes que o leitor fique em dúvida sobre o que estou descrevendo, vou logo explicando: estou em Bento Gonçalves, cidade situada na serra gaúcha e considerada a capital brasileira da uva e do vinho. A partir da chegada dos imigrantes italianos, o cultivo da uva e a produção do vinho impulsionaram a economia local, fazendo desta cidade uma referência no assunto. A imigração italiana exerceu forte influência também em nosso idioma. E não se resume a tipos de pratos como espaguete, macarrão, panetone, pizza, mas também a fenômenos oriundos daquele país como ópera, máfia, fascismo... esta última palavra, diga-se de passagem, é bastante falada nos dias de hoje. Mas melhor deixar quieto.

A cidade de Bento Gonçalves é o principal destino enoturístico do Brasil. Para lá, milhares de pessoas vão a cada ano para conhecer o Vale dos Vinhedos e saber como são produzidos os mais diferentes vinhos e espumantes da região. Ao chegarmos lá, fomos recebidos por um grupo de teatro que realizou a encenação que estou descrevendo. A apresentação teatral se repete sempre que uma leva de turistas chega à cidade. Esta é a maneira de entreter seus visitantes e dar a eles uma receptividade digna de uma grande cidade turística. Os atores são próprios da região, todos descendentes de famílias italianas. A cena se desenvolve de tal forma que prende a atenção de todos. Situações estereotipadas são reforçadas em diferentes momentos da apresentação e arrancam risos do público que assiste ao espetáculo mambembe.

Após a apresentação, todos aplaudem satisfeitos. O público é composto por turistas de diferentes cidades do Brasil. Estão ali para se divertirem, conhecerem as vinículas da região e, claro, saborearem deliciosos vinhos. Não estão interessados em saber se a cena corresponde de fato ao que os nossos historiadores dizem. Isso é um mero detalhe.

Na estação de trem da cidade, antes de irmos em direção a Caxias do Sul, um grupo musical, com uma indumentária tipicamente italiana, nos presenteou cantando Cantaré, oh oh oh oh... Nel blu dipinto de blu... Felice de stare lassù... Foi sem dúvida um bálsamo para os nossos ouvidos. Rimos alegres e erguemos as taças de vinhos para brindarmos felizes a forte presença da cultura italiana em nosso solo brasileiro.


Fábio Rodrigo Gomes da Costa é professor e mestre em Estudos Linguísticos.


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