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A justa medida do bairro Maria Paula, por Erick Bernardes


Nunca vi cidadão residente em Maria Paula admitir que mora em São Gonçalo. Pois é, o morador se encontra vivendo de um lado do bairro e demonstra satisfação só porque se mudou para um pouco mais à frente. Juro, pura malandragem. Incrível a falta que faz o conhecimento histórico.


Maria Paula Azeredo Coutinho Duque Estrada foi uma personagem importante de outrora, muito antes de virar nome de bairro bimunicipal. Justamente, um bairro localizado entre dois municípios e separado pela Estrada do Rio do Ouro (antiga Estrada Velha de Maricá). Vergonha mais tola não assumir endereço verdadeiro. Sim, de fato a balança da vaidade tem lá seus brios inconfessáveis. Constrangimento de residir em São Gonçalo, em prol de bater no peito como filho legítimo da terra de Arariboia.

Recordo bem do colega Sávio jurando aos amigos do futebol que morava desde criança em Niterói. Que diriam as pessoas do começo de formação do bairro Maria Paula, se soubessem que, décadas após a população se multiplicar, uns insignificantes metros de distância dariam tanta quizumba na hora do morador proclamar felizardo o seu endereço. “O senhor mora em São Gonçalo ou Niterói?” Bem, a conveniência tem lá suas predileções. Se o reconhecimento acerca da moradia for em alguma festa ou nessas amizades feitas às pressas, decerto o camarada ostentará a insígnia niteroiense em um convite de almoço qualquer. Contudo, se for o auditor da prefeitura a fazer visita de revisão tributária, rapidinho o pseudo niteroiense admitirá que faz parte da plebe rude de São Gonçalo, só pra não pagar IPTU alavancado.


E, por falar em plebe, dizem que a dona Maria Paula foi ama de leite de Dom Pedro II. Sim, há quem sustente tal hipótese que transformou a plebeia em dona de terras. Outros dizem que não, haveria, antes disso, uma outra Maria Paula Coutinho a quem pertenceram as herdades daquele espaço ameno do passado. Não sei, confesso que não sei, é apenas mais uma das minhas ignorâncias. Entretanto, juro que a artimanha dos endereços elásticos é verdadeira. Niterói possui imposto enorme, enquanto a cidade de São Gonçalo é desprestigiada e de cobrança predial menor.


Sede da Fazenda Maria Paula em ruínas/Foto: Boto Negro

Eu, por minha vez, prefiro achar que o tal limite cortando Maria Paula ao meio, se revela uma das ilusões do espírito moderno. No fim das contas é tudo papelada burocrática. Prova disso é que, quando chega o carnê do IPTU, em um simples passe de mágicas a realidade dá tchauzinho ao truque ideológico e o sacana do morador tão logo migra o discurso para banda gonçalense.

Meu município é São Gonçalo, desnecessário reconhecer que a cidade tem problemas. Não assumo hipocrisias de enaltecimento do que em verdade não temos. Contudo, estou disposto a ressaltar o valor magnífico de que meus conterrâneos se investem. Sávio é gente boa, gonçalense até o canto do dente. Há de admitir um dia, ele mora em Maria Paula. Salve, Sávio, seu sujeito sacana!


Eric Bernardes é escritor e mestre em Estudos Literários.


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