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Ao Barro Vermelho voltaremos, por Erick Bernardes


Há desses casos de nomes de lugares que nos oferecem terra boa para a imaginação brotar. O que dizer então do bairro chamado de Barro Vermelho? Viu aí! Fácil utilizar de analogia ilustrativa e ceder ao equívoco. Lamacento, diria o invejoso, se enganaria o adivinhão acaso referisse assim. Certo é que, ao menos nas vias principais, nada existe atualmente de lama rubra por lá. Terra ferruginosa e calcária. Mas era vermelho aquele chão no passado, talvez na pior hipótese pareceria alaranjado.


Hoje o asfalto liso da subida da antiga loja de sapatos Solinho serve aos skatistas que se arriscam zunindo as rodas sem travas entre os ônibus e carros em velocidade média. Um perigo pra essa juventude afoita. Perigosíssimo. Mas, que adianta falar? O adolescente desce veloz o tapete asfáltico sem saber que antigamente o lugar oferecia sua argila avermelhada às olarias da família Nanci. Sim, fabricavam-se telhas no morro ao redor, tijolos, lajotas e uma variedade absurda de vasos gigantes esculpidos em cerâmica. Verdade, a olaria se foi, os Nancis não, cresceram em influência política. Vai lá na prefeitura, diz quem está no volante desse carro “desgovernado” chamado São Gonçalo.


As fábricas do Barro Vermelho pertencentes ao clã tradicional gonçalense não existem mais, tampouco os jovens sabem onde seus fornos de produção ficavam. Não ouviram dizer onde assavam os tijolos. E você sabe, caro leitor? Eu explico: bem lá no alto ficava a indústria, mais à frente a própria fornada esfriava no chão. Agora, imagine, existe um CIEP no lugar, e isso é bom, ao menos é espaço para educação. Em vez de olarias, estuda-se a escravidão romanceada, lá mesmo em frente da subida da antiga loja Solinho, onde mais um maluco passou “voando” agora sobre o asfalto. Meu Deus, que loucura, o rapaz do skate caiu! Desta vez o esportista radical se deu mal. Juventude doida, eu hein! Meteu a cara no chão, ralou o joelho e o queixo e sujou de sangue a listra amarela no meio da pista. Quase morreu o sem noção, imprudente.

Isso nos leva a pensar, se o homem provém mesmo do barro, só o bom cristão dirá. Mas aquele garoto, trepado na prancha de quatro rodas, quase voltou para o lugar de onde veio. Faltou um cadinho para ser esmagado no crânio, ir direto para as cucuias e fazer a coitada da mãe chorar. Mais um pouco teria certeza de que, do barro donde o jovem saiu, decerto ao mesmo barro ele teria retornado. Ali mesmo, no bairro chamado Barro Vermelho.


Erick Bernardes é escritor e mestre em Estudos Literários.


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