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Caminhando pelas ruas de São Gonçalo, por Mário Lima Jr.



Tento caminhar algumas vezes por semana, de manhã, por uma questão de saúde mental e física e pra ver a rotina dos bairros perto da minha casa, no Vila Três. Passo pelo Raul Veiga, Alcântara, Coelho, Almerinda e volto quando chego ao Colubandê. Antes de abrir o portão de casa, subo a escada que leva ao terraço e olho por cima do muro, pra esquerda e pra direita. Se estiver passando alguém com aparência de assaltante, eu espero. Caso contrário, abro o portão e começo.

Perto da esquina da rua Aldrovando Pena com a Alexandre Muniz, eu paro e pulo a primeira língua negra de esgoto, que vaza há pelo menos dois anos. Caminho por três minutos e quando alcanço a rua Luís Mota, no Raul Veiga, paro de novo e aguardo o melhor momento para atravessar. O fluxo de veículos que vêm do 2º e 3º distritos é intenso e não existe sinal de trânsito, nem calçada para pedestres. No horário escolar, as mães andam com seus filhos na rua, disputando espaço com os ônibus, arriscando a vida.


Na altura da praça Chico Mendes, os obstáculos são as pilhas de lixo na calçada. Encontro copos de guaravita, sacos de supermercado e comida espalhados. Quero levantar a cabeça pra manter uma boa postura durante a caminhada, mas se eu não olhar para baixo, posso escorregar num caldo de feijão e cair.

Depois de inspirar a fumaça dos veículos parados no engarrafamento constante que leva a Alcântara pela RJ-104, vem outro trecho perigoso, um pequeno viaduto no Coelho. A passagem para pedestres é estreita, algumas pessoas já foram atropeladas e jogadas lá embaixo, no valão. Existe outro caminho, pela rua Alberto Coelho, só que as calçadas são desniveladas demais, não servem para caminhada, e o índice de assaltos lá é maior.

Ainda no Coelho, surge o prazer do trajeto. Algumas dezenas de metros da rua paralela à RJ-104 são nivelados e sem buracos. Tem até árvores, amendoeiras. Posso manter a coluna reta, acelerar o passo e sentir o sol, que nasce em Santa Isabel, batendo nas minhas costas.

No Colubandê, perto da Fazenda, volto repetindo o caminho, passando pelos mesmos obstáculos, mas dou menos atenção a eles. Às nove horas da manhã, a vida está a todo vapor. O sol está mais forte, esquenta o rosto, mesmo assim vejo a vendedora de pastel feliz, sorrindo para o cliente enquanto prepara um caldo de cana na máquina de moer.

Além de ser interrompido pelos buracos, vendedores de auto-peças me param nas ruas, tentam apertar minha mão, oferecem um café da loja. Eu recuso, claro, estou caminhando. Na praça Chico Mendes, entre o Alcântara e o Raul Veiga, os cracudos gostam de dizer “bom-dia” e ai de mim se eu não responder. Olham de cara feia e me sinto a pessoa mais mal educada do mundo.


De volta à rua onde moro, algumas vizinhas pegam sol enquanto conversam na calçada sobre o tiroteio no dia anterior. Cada uma apresenta sua própria teoria, mais elaborada do que a inteligência da Polícia Civil, a respeito das novas alianças entre traficantes. Acho que cada rua de São Gonçalo tem um pouco disso tudo.


Mário Lima Jr. é escritor.

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