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Reverendíssima besta, por Olívia Neves



Olá, pessoas, como vão vocês? Estão bem? Bom, eu geralmente escrevo sobre cinema nas minhas colunas mas, aqui falarei sobre uma sitcom que acontece todas as manhãs.

Existe toda manhã um programa de rádio que também pode ser assistido pela internet. Nesse programa, comentaristas discutem sobre vários pontos de vista sobre um determinado assunto. Já teve inúmeras discussões fervorosas nesse programa.(Cada barraco que você nem acredita, menina!) Mas quem chama mais atenção, com certeza, é a razão dos meus risos: O Caio Copolla.

Mas por que ele é a razão dos seus risos? Você por acaso não concorda com uma ideia só por ela ser diferente da sua? Não, eu tento ouvir e entender as ideias de outros a fim de ter uma discussão saudável. Porém o comentarista em questão me causa acesso de risos por muitas questões. Lembra-se quando você não sabia uma questão da prova e o que te resta é enrolar? É mais ou menos isso o que sinto quando ouço o autodeclarado analista comentarista.

Parecendo uma personagem machadiano, Caio Copolla ao dar a sua humilde opinião, nos encanta com as palavras mais sofisticadas e mais rebuscadas da língua portuguesa para se explicar dando ao discurso um tom cômico.

A comicidade também se atrela ao fato de ele analisar algo que obviamente desconhece ou que não fez uma pesquisa básica sobre o assunto, usa termos técnicos de difícil compreensão para basear seus argumentos ficando mais hilário ainda. A cada programa ele solta uma pérola diferente foi difícil escolher a mais legal. Mesmo assim, tal vocabulário não esconde sua imensa ignorância.

Bastante criticado por youtubers, como Henry Bugalho e os meninos da “Galãs Feios”, Caio ao usar tais palavras finas e elitizadas, defende o indefensável. Ele tentou defender o veto que o presidente fez à propaganda do Banco do Brasil. E, sendo “comentarista analista”, não faz o seu papel de imparcialidade ao discutir os fatos. Não usa uma linguagem mais coloquial a qual se tem uma fácil compreensão e a mensagem chega com mais facilidade a uma gama maior de ouvintes. Parece que seu objetivo não é enviar a mensagem de maneira correta e sim mostrar o quanto é “inteligente”.

Maaaas, não se enganem! Se o caro leitor ouvir atentamente os comentários do ilustre analista, perceberão que não há nada além de um amontoado de palavras bonitas sem ter realmente um significado e muitas vezes existe um teor preconceituoso nessas falas.

Muitos ouvintes da rádio o admiram deslumbrados com a inteligência dele ou por ele se considerar um direitista conservador que critica duramente a oposição, mesmo que essa crítica não faça sentido algum. Ao olhar os cometários que se tem nos vídeos do Youtube, muitos dão razão ao Caio e não consideram a opinião dos outros comentaristas que fazem oposição a ideia dele. E, por mais que seja engraçado, com seus argumentos vazios maquiados por palavras acadêmicas ele consegue ter um apoio popular muito grande e é preocupante por vários motivos.

Primeiro que, ouvir uma pessoa, seja ela qual for, e dar a ela a razão total sem nenhum pensamento crítico, sem argumentar o por quê dela falar isso, qual a sua base de pensamento, é extremamente perigoso. Segundo, no Brasil, existe uma série de exemplos de que acreditar em pessoas que tem um discurso muito rebuscado é furada na certa. (Alguém aí lembra do Collor?). Terceiro, Caio Copolla se considera um conservador. Na História do mundo existem vários exemplos de que quando algum grupo conservador ganha força a massa sofre. Lembrem-se que foi por causa do conservadorismo que se queimavam bruxas, várias ditaduras subiram ao poder, nos países árabes esse mesmo pensamento conservador oprime mulheres, e por aí vai.

Outro perigo das palavras vazias do Copolla é a difamação que ele faz da oposição. Toda vez ele arranja um pretexto para dizer que a esquerda mente, a esquerda está errada, a esquerda não sabe o que é democracia e isso não é criticar ou analisar é falar mal de um viés político diferente do seu. Ora, se o Caio realmente quisesse proteger a Democracia ele não teria tal discurso e não o repetiria tantas vezes, pois saberia que para ter um Estado Democrático de Direito é necessário ter esses dois vieses diferentes, caso um se sobreponha ao outro teríamos assim um Estado Autoritário.

Política não é filme da Disney onde existe de um lado os mocinhos do outro o mal que deve ser destruído. Antes de mais nada, uma boa política é um debate de ideias que gere o bem comum. Não é porque eu acredite que o Socialismo é o melhor plano político, que devo atacar alguém que tem como visão política o Liberalismo, dizendo que ele mente ou que são “negativistas por excelência”, apenas por eu não concordar com aquele raciocínio.

Essa atitude demonstra certa imaturidade política no comentarista e é preocupante ver pessoas que concordem com esse tipo de discurso simplista e preconceituoso que indiretamente fere a Democracia.

Partindo para a parte cômica, tentei traduzir algumas frases do Caio para que não nos tornemos bonifrates desse réprobo xenômano(Por que eu também sei usar palavra difícil ;) ) :

“Você não pode colocar uma equidistância entre o cidadão médio a ambos os polos políticos”

Tradução: Você não pode comparar quem é de direita e quem é de esquerda.

A discussão em questão era sobre o texto de José Padilha sobre a Lava Jato, mais especificamente quando ele compara os defensores do Bolsonaro e os defensores do Lula. Para o comentarista a histeria dos bolsominions é diferente do lulismo. Para ele o lulismo é pior.

“Existe uma distinção fundamental de valores, até no ponto de vista ideológico. A direita sempre vai prezar pela realidade e a esquerda vai trabalhar com a emoção, com a narrativa ideológica.”

Tradução: A direita trabalha com a razão e a esquerda trabalha com emoção.

Além dessa frase ser hilária ela é facilmente contestada por fatos concretos. Tanto na esquerda quanto na direita há pessoas que vão prezar pela realidade e outras pela emoção. Nós vemos em muitas passeatas que se dizem de esquerda grupos que destroem patrimônios públicos, podemos pegar o exemplo da Sininho no caso das manifestações de 2013. Na direita também podemos perceber um grande uso da emoção ao invés da razão, como a atitude do Aécio Neves ao perder as eleições para a Dilma, ou nas eleições de 2018, onde o PSL, um partido de direita, foi o que mais trabalhou com a emoção dos eleitores e com narrativas ideológicas, como a história do Kit Gay ou das urnas fraudadas.

“Elite sindical, elite estudantil, elite acadêmica, elite política.”

Tradução: Sem tradução.

Nunca nem vi esse pessoal…

“Princípio basilar do Estado Democrático de Direito.”

Tradução: Base de um país democrático.

Essa frase e a anterior, fazem parte de um comentário do Copolla sobre a morte de uma mulher. Durante protesto contra a Reforma da Previdência em Minas Gerais, colocaram fogo em pneus, esta mulher inalou muita da fumaça e acabou falecendo. Uma irresponsabilidade dos organizadores que devem responder por esse fato. No entanto, o revoltoso Caio faz algo que mais revoltoso ainda. Com essas belas frases, o comentarista se aproveita da tragédia para desmoralizar as lutas dos movimentos sindicais dando destaque a classes dos professores (que vergonha…) e ele termina dando a grande e maravilhosa ideia de fazer protestos e greves nos finais de semana (kkkkkkkkk). Segundo ele, aquelas pessoas não entendem nada de Democracia, pelo jeito ele não entende para que serve uma greve.

“Hipersensibilidade da militância gay”

Tradução: A comunidade gay é mimizenta.

“Teoria progressista do privilégio”

Tradução: Mi Mi Mi

Essas duas últimas frases vem da discussão sobre uma polêmica envolvendo o técnico Bernadinho com uma jogadora trans. Ao dar a sua mais sincera opinião “analisando” os fatos, Caio mostra o quanto ele “não é” preconceituoso, é tudo uma questão de “tecnicidade”.

Continuando essa análise “filológica”, da língua do Caio Copolla, separei especialmente o programa que ele discute sobre Paulo Freire. Porque é um tema mais complexo, já que o Paulo ele é um pensador e também foi o programa que mais me fez rir pois via-se nitidamente que o Caio não entendeu absolutamente NADA do que ele tinha lido do Paulo Freire. Com vocês algumas pérolas:

  • “Paulo Freire era um precursor da doutrinação dentro da sala de aula” (Olha a escola sem partido aí gente! Marxismo Cultural não hein!)

  • “Ensino da ideologia revolucionária” (Mas que absurdo hein, Paulo…)

  • “Segundo Paulo Freire a família é opressora” (Olha que não é tão mentira assim…)

  • “Paulo Freire é xenófobo” (MAOOOEEE KKKKKKK)

Na medida dos meus limites e dos meus conhecimentos sobre Paulo Freire tentarei explicar o que o Caio não entendeu. Lembrando de que, quem quiser aprofundar-se sobre o assunto, procure a obra do pedagogo ou algum especialista. Copolla usa um artigo da Gazeta do Povo titulada “Cinco ideias indefensáveis de Paulo Freire” que como os próprios cometários do Caio, é um artigo bem vazio e com tons preconceituosos chamando-as de ideias comunistas.

1) “O mundo se divide em Opressores e Oprimidos.”

Segundo Copolla e o autor do artigo que ele cita, isso é uma verdadeira mentira. O pedagogo via o mundo de forma binária, segundo a teoria marxista e sua paixão por Cuba. Se o Paulo Freire era apaixonado por Cuba, eu não sei. O que penso é, em que mundo essas duas pessoas vivem por não acreditarem que não há esse sistema binário de Oprimido e Opressor?

Um grande exemplo encontra-se em nossas terras. Os nossos ruralistas que invadem terras indígenas e muitas das vezes matam vários desses povos, que tiram terras de pequenos agricultores. A própria relação entre patrão e empregado, quem você acha que é mais forte e pode dominar sobre o outro? Acha mesmo que essa relação é de igual para igual? E nos âmbitos judiciários quem fica mais vulnerável? A empresa que consegue contratar vários advogados ou o pobre que mal consegue ganhar para comer?

2) “Che Guevara é um exemplo de amor.”( Taquepariu…)

Paulo Freire em uma parte de seu livro, mostra sua grande admiração pelo líder Cubano Che Guevara. Usa exemplos de seus escritos para chamar atenção de que se deve voltar o seu olhar para o povo caso você queira seu apoio. Ele chama de Guevara de “homem excepcional” e com uma profunda “capacidade de amar” e assim conseguiu sua “comunhão com o povo”.Com isso Guevara conquistou o povo e conseguiu fazer a revolução em Cuba. Porém, o pedagogo na obra nunca deu a entender de que ele era um exemplo de amor e sim um exemplo de comunhão com o povo.

Essa opinião de Paulo Freire não afeta a grande contribuição para o repensar da Educação e colocar isso como argumento para desmerecê-lo em um tanto patético.

3) “A educação deve estar a serviço da revolução”

Vamos aqui lembrar ao Caio que sim, é pra isso que serve a escola. É na escola que acontece a revolução. É no âmbito escolar que se deve ter um ambiente que desenvolva a cidadania, o pensamento crítico, a liberdade de expressão e o debate de ideias. Essa ideia está completamente certa, e alguém que preza pela liberdade de expressão nunca contestaria esse pensamento. É na escola que se deve acontecer a revolução cultural, onde mais aconteceria isso se não, na escola? O fato é que, tanto Caio Copolla, quanto o autor do artigo enxergam de forma preconceituosa e limitada a palavra “revolução” remetendo novamente ao comunismo e as ideias marxistas.

4) “A família é opressora”

Ouvindo o comentário do Copolla, é notório que ele não sabe interpretar um texto. O artigo diz que Paulo Freire não fala do papel da família na educação. No entanto, no trecho escolhido para exemplificar essa tese, não mostra nada mais do que uma conclusão da observação dele. Ora, se vivemos em uma sociedade opressora e a família reproduz essa sociedade em casa, essa família é opressora também. Então, na escola, onde se acontece a tão temida “revolução cultural” os mecanismos da sociedade se alteram como também o da família. Em nada nesse trecho fala mal do âmbito familiar ou que ela não deva participar da vida escolar.

5) “É preciso combater a ‘invasão cultural’”

Você por acaso conhece a expressão “Síndrome de Vira Lata”? Ela é usada para identificar pessoas que gostam mais do que vem de fora do que vem do próprio país.

Durante toda a História os países da América Latina foram bombardeados com uma cultura de massa vindo das potências econômicas, principalmente dos Estados Unidos criando uma hegemonia e automaticamente desprezando a cultura local. O antiamericanismo é acabar com essa hegemonia criada, e não perseguir americanos porque são americanos.

Em comentário Caio diz que Paulo Freire tem um “nacionalismo que beira o ufanismo e a xenofobia” (kkkkkkkkkkkkkkkkkk). E é nessa parte em que fica mais visível o quanto ele leu e não entendeu Bulhufas do que o Paulo Freire escreveu (e pelo jeito o colunista da Gazeta também não). O que Paulo Freire prega, é a valorização da cultura brasileira, da cultura popular ao invés da cultura que vem de fora, que sim, nos aliena, nos faz perder a nossa originalidade, a nossa identidade como povo e sim, isso é considerado uma violência ao ser da cultura invadida. (Pensa no que aconteceu com os índios, cara). Isso não é considerado xenofobia nem longe! O que o Paulo defende nesse trecho é a identidade do povo brasileiro! E desde quando é considerado absurdo um Educador defender a identidade do seu próprio povo? Não tem nada indefensável nessa ideia.

Eu poderia dar mais exemplos, contanto está ficando muito longo. Então para concluir, devo dizer que Caio Copolla erra em tudo. Erra enquanto comentarista, erra enquanto analista, erra enquanto comunicador e erra enquanto articulador político.

Para vocês leitores fica a dica de ir lá escutar o esse grande comentarista da atualidade que não mede palavras para articular e expor seus conhecimentos (e olha ele é um sósia perfeito do Kaká) desde que vocês tomem cuidado e não caiam no encanto de ouvir um “Falácia consagrada de tratar a exceção pela regra”. Depois de rir (muito) ao ouvir tais frases pensem direito o que elas transmitem, se elas realmente transmitem alguma coisa e o mais importante qual ideia elas defendem é uma opinião imparcial? Um modo de pensar? Que modo? Elas destroem ou constroem preconceitos?

Vale lembrar no final desse artigo que muitos discursos de ódio são maquiados pela norma culta língua, então fiquemos atentos não apenas as palavras mas às ideias que elas defendem.


Olivia Neves é escritora.


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