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5X era um rapaz que sonhava grande, por Mário Lima Jr.


Foto: Rafael Corrêa

Criado bem no coração do bairro Abacateiro, filho de mãe católica, Paulinho frequentou a Paróquia Santo Antônio por alguns anos durante a infância. Nessa época seu sonho era ser jogador de futebol. Seu último desejo, já um jovem de 27 anos, foi dominar o comércio de maconha e cocaína em cada favela de São Gonçalo.


O pai de Paulinho confundia rigor com violência. Depois do quinto tapa na cara que tomou por motivos banais, como se esquecer do horário brincando na rua com os amigos e chegar em casa após às 9 horas da noite, o menino decidiu que um dia colocaria as mãos em uma daquelas armas que via circulando na esquina e atiraria no próprio pai. O álcool se encarregou de matar o homem, mas a sede de vingança e um ódio dissimulado do mundo cresceram dentro de Paulinho com o passar dos anos.


Na adolescência ele tocou em uma pistola pela primeira vez. Pertencia ao dono da boca de fumo que ainda existe perto da casa que o rapaz morou. Paulinho sabia que aquele objeto não ajudaria a comprar uma casa digna pra mãe dele. Que não o transformaria em um jogador de futebol profissional. Mas a sensação de poder que ele proporcionava era irresistível. Poder sobre o território, sobre as vidas que nele moram. Passou a querer mais daquilo.


Fumar maconha era bom. Vender, melhor ainda. Era uma forma de fazer os outros felizes por alguns instantes. Um jeito de se redimir por tudo o que não fez pela família. Paulo passou a vender mais e ficou popular. Quando um amigo traficante debochou dos tapas na cara que ele tinha tomado do pai na infância, zombando de Paulinho e chamando ele de “viado”, o rapaz sacou a arma e deu um tiro na panturrilha do outro bandido. A história se espalhou pelo Abacateiro e o apelido pegou. Paulinho Cinco Vezes, ou 5X, dos cinco tapas na cara que ele tomou e o transformaram em um homem, na versão da vítima.


Depois de assumir o controle total sobre o tráfico no Abacateiro, 5X percebeu que podia conquistar territórios maiores e levar seu estilo de administração junto com ele. Com justiça, sem a violência gratuita que o “filho da puta” do pai dele amava. Trazendo alegria para as pessoas, na verdade, os viciados. Ganhando dinheiro com isso, mesmo que não pudesse comprar a casa que a mãe precisava, ela não aceitava presente que tivesse o crime como origem.


O Quintal dos Santos estava ali pertinho, dando mole, bastava atravessar a Estrada Raul Veiga. 5X e seu bando se deslocaram no meio da madrugada, sem dar nenhum tiro, e a “paz” chegou ao bairro. O rapaz se sentia um conquistador. Citava seus ídolos, Napoleão Bonaparte e Alexandre, O Grande, diante dos seus soldados boquiabertos e ria da ignorância deles. 5X já tinha lido a biografia desses e de outros personagens revolucionários anos atrás (há mais erudição entre chefes do tráfico e da milícia do que podemos imaginar).


A ambição dele se tornou maior. A paz, ou o domínio completo do crime sobre uma localidade que deveria pertencer ao povo gonçalense, precisava alcançar o saudoso Flor do Campo. Seria bom para os negócios e para a população, que sofria nas mãos do bando rival.


O Flor do Campo estava melhor defendido e ficava longe demais do Abacateiro, base do seu exército. 5X sabia dos riscos. Nas redes sociais, Bruno Carvalho, vulgo Silvão, chefe da comunidade, publicava antes da invasão que Jesus era o dono do lugar e que o Flor do Campo jamais seria tomado. Bem que 5X tentou. Três seguranças morreram com ele, seguindo seus sonhos, executados com tiros na cabeça.

Mário Lima Jr. é escritor.


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