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A Capoeira do Mestre Travassos, por Oswaldo Mendes


Mestre Travassos/Acervo pessoal - Facebook

Idos de 1970 e início de 1980. As noites de São Gonçalo eram na “Vila”- ponto de Resistência e Underground, ou seja, ao lado da Igreja de São Gonçalo, no Rodo, com a Turma do Rodo no Pastelão, nos diversos Clubes, dentre eles o Tamoio, Mauá, Embaixadores, Crol, Vila Lage.

Cinema, as igrejas já haviam ocupado algumas, o Cine Vera Cruz, Nanci e Tamoio, mas a dificuldade financeira era muito grande. Alguns já possuiam seus fuscas, opalas, DKV, Maverick ou, no meu caso, um Aerowillis, carros de alto consumo em relação ao nossos dias sem quase nenhum item de conforto e segurança até que um dia um cidadão deu uma entrevista dizendo que “os nossos carros são umas carroças”, mas isto foi em 1990.

Radio toca fitas e o da moda era o TKR. A comunicação era através o PX -Radio da Faixa do Cidadão. Telefone era uma dificuldade. A madrugada era e é linda e repleta de jovens. Lembre-se que na nossa visão o Mundo não mudou, apenas se adaptou.

O point de Niterói era a Praia das Charitas e onde atualmente está instalado o MAC. De ônibus era muito difícil qualquer coisa, assim era necessário o carro, mas ou era a gasolina ou a bebida.

Para frequentar os melhores Clubes da cidade tinha que ser sócio, mas como se não tinha dinheiro? Participar como Sócio-Atleta e a entrada estava garantida. Bailes eram repletos de famosos e ficar fora do Baile do Iguana ou do Reveillon, nunca.

As questões ligadas à cultura afro-brasileira eram sutilmente colocadas à margem e atualmente foi escancarado o ódio: samba, umbanda, candomblé e capoeira.

A Capoeira era coisa de malandro com forte repressão do Estado, isto num período onde quem não pensasse como os Ditadores eram mortos e torturados, mas quem fazia parte do esquema eram intactos. Leiam caso Claudia Lessim Rodrigues (veja o filme completo no final do texto) ou mesmo o Atentado do Rio Centro.

A poeira era jogada nas ruas da cidade, aprendido através de alguns Malandros. Chamamos à atenção de que pejorativo “Malandro” mudou com o passar do tempo e o perigo do antigo Malandro para um Malandro de gravata não se comparam.


As Rodas de Capoeira eram ilegais. Caçadas e repreendidas pela Sociedade. Os pais da dita e então Classe Média não liberavam seus filhos para participarem de Rodas de Capoeira e então era muito difícil para os então Mestres.

Outro movimento que se também iniciava era o Movimento Negro, com as montagens caseiras de “Equipes de Som” e para tal precisávamos de um link entre o legal e rechaçado pela Sociedade. Formamos a Equipe Shadowns e diversas outras, isto com alunos de eletrônica do CEBRIC, ex-Colégio da Polícia Militar, isto em Niterói.

No Fonseca, Fonsequinha, Caixote, Marajoara, 29, Vila Lage e outros clubes fazíamos bailes e atraíamos grande público.

Os Policiais necessitavam fazer outros trabalhos por fora do expediente para completar seus salários, como outras profissões, isto até nossos dias e assim contratavam Seguranças que eram conhecidos pelas Comunidades para manter a ordem e a repressão oficial não ser incitada.

Conhecemos assim Suamir, Travassos e outros.

Mas tinha um detalhe, Victor Widavisk Travassos (Mestre Travassos), o qual conhecemos e muito admiramos; Manoel dos Santos Francisco (Mestre Manoel Gato Preto – já falecido); Alípio, Zacarias, Valdir Vasconcelos, entre outros eram Policiais e também Mestres de Capoeira, recém admitidos pela PMERJ.

Para se conhecer mais sobre a Capoeira em São Gonçalo leia em http://actg.comunidades.net/a-historia-da-capoeira-em-sao-goncalo.

Com a participação de Militares como Mestres adveio a aceitação para que os jovens participassem de Rodas, sem deixar o apoio incondicional aos jovens de Comunidades.

As Rodas de Capoeiras começaram a se apresentar em escolas e clubes. Era a chave que necessitava. Na nossa visão foi a partir desses fatos que aconteceu a aceitação da Capoeira com a participação direta da PMERJ seja para inclusão de jovens pobres na Sociedade, sempre orientando para buscar os caminhos aceitos e também da Classe Média para um esporte extremamente educativo.

O Travassos, assim como os demais Mestres que lutaram pelo reconhecimento e crescimento do esporte, já logicamente que colocaram seus nomes na história da cidade, da Capoeira e no coração de todos os que foram seus alunos, mas merecem também homenagem da cidade.


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O Caso Cláudia:


Oswaldo Mendes é engenheiro.




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