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A constrangedora morte do buda napolitano, por Sammis Reachers


Ele colecionava estátuas de budas, tinha coisa dumas duzentas.


Mas, claro, não era budista. Só achava algo felizes aquelas estátuas.

Agora ninguém sabe com quem ficarão.

A patroa, dona Ninosca, lotada de broncas – já já explico –, mandou arriar aquele ebó bem longe de sua benfeitoria. E o dito cujo, de peito, só tinha três amigos, Solimão, que é crente, eu, crente, e Menelau, que não tem espaço na quitinete e acha por bem doar a coleção para alguma instituição budista. Esclareci que é difícil encontrá-las, e tais estátuas não têm sua chancela: são quinquilharias feitas em cerâmicas de fundo-de-quintal, para enfeitar geladeiras da classe C ou D, geladeiras cujas donas creem que lhes trarão sorte e prosperidade financeira, as estátuas.


De mim, propus fazer o que se deve fazer aos ídolos de barro, ouro ou papel machê: destruí-los sem misericórdia. Mas Solimão, o outro crente, tem “medo dessas coisas”. E “ele era nosso amigo.” Quem, o Buda?


Quanto ao defunto, era o Manolo, velho carcamano fugitivo da Camorra napolitana (quem saberá o que fez, com que mágoa magoou os mafiosos seus conterrâneos? Nunca contou.), instalado, na encolha, no bairro de Boaçu, em São Gonçalo, com sua humilde mercearia. Apreciava as cores da terra, tanto que se amasiou com a Ninosca, baiana enfezada em tons de jambo. Dentre outros frios, Manolo vendia o melhor queijo parmesão do leste fluminense, que dizia vir de avião de sua terrinha na Itália, mas que sabíamos vir da cidadezinha mineira de Capim Grosso, a cada quinzena, numa estropiada Kombi 86.

Três foram as alegres e impudicas causas de sua morte, as mesmas que já enviuvaram tantas cansadas & indispostas & respeitáveis senhoras mães de família: Viagra, prostitutas e sexo.

Morreu de infarto fulminante, barrigudo e sorridente como seus budas, fulminado na cama de um motel barato do Arsenal, aqui, pertinho de minha casa.


Eu bem que avisei.


***

Alguns livros (gratuitos) que escrevi ou organizei podem ser baixados AQUI. Um pouco de poesia experimental? Eu experimento AQUI.

Sammis Reachers, nascido por acaso em Niterói mas gonçalense desde sempre, é poeta, escritor e editor, autor de sete livros de poesia e dois de contos, e professor de Geografia no tempo que lhe resta – ou vice-versa.





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