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A Enel matou Kaio e Kauã eletrocutados, por Mário Lima Jr.


Dois irmãos de 2 e 14 anos de idade foram eletrocutados no dia 13 de janeiro no bairro Porto do Rosa, em São Gonçalo. Uma tragédia criminosa que deveria ter sido evitada. Segundo moradores do bairro, um cabo elétrico que há pelo menos um mês ameaçava se romper finalmente caiu, acertando Kaio, o menino mais novo. Kauã foi tentar socorrer o irmão e morreu também.


De acordo com o último relatório financeiro disponível online para investidores da Enel Brasil, distribuidora de energia para São Gonçalo e responsável direta pelo cabo elétrico que matou as crianças, a empresa lucrou R$ 2 bilhões no ano de 2018. Nenhum centavo dessa fortuna foi aplicado pela Enel, voluntariamente ou por força de lei, para impedir que crianças gonçalenses fossem assassinadas ou brutalmente feridas.

Kaio e Kauã não são as primeiras vítimas da empresa. Em abril do ano passado, Adrian, de 7 anos, foi atingido por um fio de alta tensão que estava solto na calçada no bairro Almerinda, também em São Gonçalo. Adrian teve 60% do corpo queimado, precisou amputar o braço direito e os movimentos do menino foram prejudicados. Apesar das sequelas, a Enel cancelou o auxílio-tratamento que fornecia (O São Gonçalo). Se houvesse dignidade na direção da empresa, cuja sede fica em Niterói, bem perto dos crimes que comete em São Gonçalo, o auxílio ao Adrian seria pago durante toda a vida do garoto.


Um passeio por qualquer bairro de São Gonçalo mostra a decadência da fiação elétrica municipal, sempre embolada e pendente, inclusive no centro da cidade. Em alguns trechos falta menos de dois metros para tocar o chão. Além daquilo que economiza por sua negligência na manutenção dos cabos, dentro do lucro bilionário está o dinheiro suado de 1 milhão de gonçalenses. O descaso e a exploração seguem impunes há anos.



Na sua nota oficial, a Enel Brasil teve a ousadia de dizer que não havia pedido de manutenção na área da tragédia e mencionou que Kaio e Kauã soltavam pipa no momento em que foram mortos, insinuando que a linha poderia ter cortado o cabo. Se isso for possível, constitui prova adicional de culpa. Porque permitiu que um fio de alta tensão fosse facilmente cortado e matasse duas crianças, em tempos de alta tecnologia preventiva disponível no mercado e aumentando seu lucro 163% em um ano, em comparação com 2017.


É necessária uma investigação rápida e honesta a respeito do ocorrido. Embora nada seja capaz de reduzir o sofrimento da família de Kaio e Kauã. Por enquanto, entre acreditar nos moradores do Porto do Rosa, que todos os dias testemunham o mau serviço prestado pela Enel, e acreditar na palavra da empresa que interrompe a ajuda financeira dada a crianças que mutila, parece mais sensato acreditar nos habitantes de São Gonçalo, que afirmam que informaram sobre o cabo que ameaçava se partir.


São Gonçalo não tem redutos de riqueza. As crianças daqui não se dedicam a aprender uma segunda língua para seguir os passos profissionais dos pais. Os condomínios fechados com lazer são raríssimos. Já a Enel Brasil faz parte de um grupo que atua em 34 países e se define como um dos principais atores do mercado global de energia. Sua última conquista foi matar dois meninos de uma comunidade pobre cuja maior preocupação era brincar.

Mário Lima Jr. é escritor.


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