A espada do guerreiro, por Paulinho Freitas

SÃO GONÇALO DE AFETOS

Reprodução
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Chovia muito, no caminho estreito ladeado por uma vegetação rasteira, morro acima, lá ia “Ferro Velho,” na verdade seu nome é Aldair, mas o apelido é de tanto as pessoas o virem com seu “burro-sem-rabo” catando toda a sorte de bugigangas pelas ruas do bairro, para depois transforma-las em dinheiro e sustento do lar. Lá em cima, no topo do morro, num pequeno casebre composto de quarto, cozinha e banheiro, Maria Alice esperava o marido. No chão perto da cama as duas crianças dormiam, no fogão as panelas brilhavam de tão limpas, porém todas de fundo para cima, o pequeno armário que funcionava como dispensa estava completamente vazio, o coração de Maria Alice estava apertado, o que faria quando as crianças acordassem? O que daria para aquelas pobres comerem? Abriu a janela e ficou olhando a chuva, já passava da meia noite e Ferro Velho não chegava, lá no fundo do peito ela tinha esperança de que ele, trabalhador como era, não voltaria para casa sem algum alimento. A escuridão e a chuva que caía não a deixavam ver nada, mas começou a ouvir, misturado com o barulho da chuva um canto que lhe era familiar:



MARIA ALICE TEU NEGO CHEGOU

VOLTOU PRA TE AMAR

ESTÁ FAZENDO FRIO MAIS SINTO CALOR

HOJE, A NOITE VAI DURAR!

SAÍ DE CASA DE MANHÃ CEDINHO

EMPURRANDO O CARRINHO

FUI EU TRABALHAR

BUSCAR ALIMENTO PRO NINHO

NOSSOS FILHOTINHOS JÁ VÃO ACORDAR

TROUXE ARROZ E FEIJÃO, TROUXE PÃO,

MANTEIGA, LEITE, MACARRÃO,

ÓLEO, TEMPERO, PIMENTA,

CEBOLA,TOMATE E PIMENTÃO

MARIA ALICE TEU NEGO CHEGOU

VOLTOU PRA TE AMAR

ESTÁ FAZENDO FRIO MAIS SINTO CALOR

HOJE, A NOITE VAI DURAR!

TROUXE CORVINA DE LINHA

JÁ TODA LIMPINHA PRA GENTE ASSAR,

CARNE MOIDA E GALINHA

DOMINGO O ALMOÇO VAI SER DE ARRASAR

DOZE LATAS GELADINHAS

PROMETO NEGUINHA NÃO VOU ABUSAR

QUERO ESTAR INTEIRO E FACEIRO

SER TEU TRAVESSEIRO, TE FAZER SONHAR


MARIA ALICE TEU NEGO CHEGOU

VOLTOU PRA TE AMAR

ESTÁ FAZENDO FRIO MAS SINTO CALOR

HOJE, A NOITE VAI DURAR!


NÃO ESQUECI MEU AMOR

DA ROSA QUE TE PROMETI

SUA PREFERIDA A MESMA COR

E FUI EU MESMO QUE ESCOLHI

PASSEI NA TENDINHA

MINHA CACHACINHA NEM VI

PORQUE ESTA NOITE SÓ QUERO

ME EMBRIAGAR DE TI.


MARIA ALICE TEU NEGO CHEGOU

VOLTOU PRA TE AMAR

ESTÁ FAZENDO FRIO MAIS SINTO CALOR

HOJE, A NOITE VAI DURAR!


Maria Alice abre a porta, corre escuridão à dentro e abraça Ferro Velho, os dois ficam ali agarrados, molhados, trocando juras de amor e de saudade, depois de entrarem em casa ele beija cada um dos filhos, ela lhe dá uma toalha e roupas secas, ele toma banho, deitam, se amam e amanhecem como namorados que pela primeira vez conhecem as delícias e o prazer do amor. Ferro Velho acorda e fica olhando para a parede em frente, lembrando seu dia de trabalho. Quando saiu pela manhã com seu carrinho chovia bastante, anda pra lá e pra cá revirando caixas de lixo a procura de latas, alumínio, cobre, garrafas vazias, qualquer coisa que possa se transformar em dinheiro, aquele dia se anunciava como ruim para os negócios, já era parte da tarde e ele não tinha o suficiente para suprir aquele dia. Ao passar pelo Morro do Tigre encontra com Alemão, “dono” do morro que sorrindo lhe faz uma proposta:


“Aí Ferro Velho! Esse negócio dá dinheiro não, ficha comigo na boca Mané, você vai se levantar! O bagulho é sério, pensa aí e me procura, é nois!”


Ainda jogou uma nota de cem reais em cima do pobre homem e saiu gargalhando como um “coisa ruim”. Ferro Velho abaixou a cabeça, olhou a nota no chão, hesitou por um momento, mas a necessidade era mais forte, pôs a nota no bolso de trás da calça e continuou seu caminho, mais adiante havia um monte de lixo, parou o carrinho e começou seu “garimpo urbano,” a primeira coisa que encontrou foi uma velha espada enferrujada e partida ao meio, no cabo estava escrito:


“SÓ VENCE A BATALHA QUEM GUERREIA COM FÉ.”


Ele entendeu o recado, pegou a nota no bolso de trás da calça, embolou e atirou longe, naquele monte de lixo conseguiu tirar muito material, na hora da venda não se desfez da espada. Voltando para casa viu uma confusão formada, muitos carros de polícia e uma multidão que mesmo na chuva olhavam um corpo no chão, ao se aproximar viu, deitado e ainda se debatendo, àquele que o tinha oferecido “trabalho de dinheiro fácil,” os dois se olharam sem palavras e os olhos de Alemão foram para sempre se fechando...


As nuvens se afastaram, o céu azul fazia a alegria do sol que se chegava para o meio do quintal sorrindo, Maria Alice preparava o almoço cantando, as crianças brincavam felizes, Aldair Ferro Velho lixou e colou a velha espada, ficou uma beleza, levou-a com as mãos espalmadas até a sala e a colocou aos pés da imagem de São Jorge, acendeu uma vela, pegou uma latinha de cerveja, abriu e pôs na frente do quadro, se benzeu, abriu os braços e bradou tão forte que o morro inteiro ouviu: OGUNHÊÊÊÊÊ!!!


Naquela tarde a bateria Ritmo Feroz, tocava forte e inspirada, no meio dela Ferro Velho era o mais entusiasmado dos ritmistas, na quadra, Maria Alice sambava e de longe namorava com os olhos o grande amor de sua vida. Era dia 23 de abril.


OGUNHÊÊÊÊ!!!!!!!!!!!!!!