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A lenda do caranguejo, por Fábio Rodrigo


Arte a partir da foto de César Rasec

Era uma família de pescadores. Todos estavam em polvorosa. Não era pra menos. A filha mais jovem da família estava com uma febre que não cessava. A jovem menina, de apenas dez anos, tava arriada na cama fazia mais de uma semana. Nunca ninguém havia visto algo parecido na cidade. E tome chá de flor de sabugueiro, chá disso e chá daquilo. Nada de melhorar. Chamaram até rezadeira pra ver se dava jeito.

O hospital mais próximo fica a léguas de distância. O jeito era apelar para a fé. Cada hora do dia, chegava gente pra fazer uma reza. Um grupo entoava cânticos religiosos enquanto outro proferia versos bíblicos. Dezenas de pessoas acompanhavam todo aquele sermão em volta da cama da menina. No lado de fora da casa, um velho pescador, um tanto descrente com toda aquela situação, disse para um grupo de pescadores:


‒ Essa menina tá é com a doença do caranguejo. – e voltou a fumar regalado seu cigarro.



O velho matuto explicou que os caranguejos atacam meninos ou meninas ainda jovens a fim de deixá-los doentes. E fazem isso por motivo de vingança. Segundo a lenda, eles entram na casa sem que ninguém os veja, na hora em que todos estão dormindo. O velho ainda disse que não há o que fazer para combater a febre. A família estava bastante preocupada com a saúde da caçula. Finalmente um médico de cidade próxima chegou até lá. Imediatamente começou a examinar a menina diante dos olhares atentos dos visitantes.

Enquanto o médico tentava diagnosticar o que havia com a jovem moça, o velho pescador voltava a dizer para todos à sua volta: “Isso é a doença do caranguejo. Pode ter certeza disso.” – e voltou a tragar seu cigarro.

Fábio Rodrigo Gomes da Costa é professor e mestre em Estudos Linguísticos.



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