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A livraria Ler é Arte precisa de um respirador, por Mário Lima Jr.


Foto: Divulgação

Como salvar da falência, no meio de uma pandemia mortal, a única livraria em funcionamento em São Gonçalo, cidade onde vivem mais de um milhão de pessoas? Há 15 anos a Ler é Arte abre espaço para a produção literária gonçalense e oferece desde clássicos da literatura mundial a revistas em quadrinhos. Depois do mês de julho, por causa das dificuldades financeiras, a loja da Ler é Arte deixará de existir. Os escritores gonçalenses e o público leitor não terão mais um ponto de referência para vender suas obras e encontrar seus livros preferidos.


A Ler é Arte é uma livraria independente que se parece com os típicos pequenos negócios familiares acolhedores. Você entra e é tão bem cuidado que tem vontade de passar horas conversando, dando e recebendo carinho, quase sem perceber, só sentindo. Com milhares de livros a sua volta prontos para serem folheados e discutidos, o tempo passa ainda mais rápido.


O fechamento do comércio e a necessidade de isolamento social foram duríssimos com a Ler é Arte e com o mundo inteiro. O movimento de leitores reduziu a zero e não houve outra opção além de planejar o fechamento da loja, que por enquanto ainda se encontra na Galeria da Matriz, no bairro Zé Garoto, em frente à nossa igreja mais famosa. A franquia da livraria Nobel, no segundo piso do shopping Partage, continua fechada e não atende ligações. Resta saber se o fechamento é definitivo.


A Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) recomenda a existência de uma livraria para cada 10 mil habitantes de uma região. Considerando a Ler é Arte, que fechará, e a Nobel, que não retomou as atividades junto com as outras lojas do shopping, ainda faltam 98 livrarias em São Gonçalo. Isso significa que os moradores da cidade têm menos chances de aprender sobre ela e de se desenvolverem como cidadãos através da leitura. Consequentemente contribui para a pobreza humana e social do município.


A sensação de entrar na livraria Ler é Arte é a mesma de encontrar um tesouro escondido. A voz, o pensamento e os sonhos dos gonçalenses estão reunidos lá, nas obras dos artistas locais, gritando por espaço e atenção. Em nenhum outro lugar isso se repete com a mesma abundância e diversidade. Nem na seção de autores gonçalenses da biblioteca municipal, criada há alguns meses, ou na erudita biblioteca do Instituto Cultural Brasil-Estados Unidos (ICBEU), localizada no mesmo bairro da livraria. A Ler é Arte é o primeiro destino de poetas, quadrinistas, cronistas, romancistas, contistas, ensaístas, historiadores e toda espécie de escritores de São Gonção que há uma década e meia saem de casa com seu trabalho embaixo do braço tentando ganhar o mundo. Perder a Ler é Arte significa jogar fora um hábito cultural, um ritual artístico, e desperdiçar parte das poucas oportunidades disponíveis para ler e ser lido.


Temo ainda pelas crianças e adolescentes gonçalenses que gostam de livros e jamais saberão o que é conversar com a proprietária de uma livraria capaz de fazer uma pequena introdução sobre qualquer obra do acervo. Que conta histórias de luta e amor que saem das páginas e fazem o seu dia ser melhor depois que você deixa a livraria. Nenhuma franquia ou tecnologia substitui essa experiência, mas o momento ainda não é de lágrimas. A hora é de esforço conjunto e salvação da Ler é Arte.

Mário Lima Jr. é escritor.




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