A volta de Jovino, por Paulinho Freitas

SÃO GONÇALO DE AFETOS

Imagem a partir de Picasa
Imagem a partir de Picasa

São Tinhorão é uma cidade banhada pelo oceano atlântico, suas praias já foram tão belas quanto as mais belas do mundo. Ocorre que com o progresso, várias indústrias foram se instalando por lá e despejando seus dejetos dentro dos rios e como os rios teimam em correr para mar, seus rios estão agonizando e suas praias ficaram impraticáveis. As indústrias se foram e restou à cidade uma orla bonita onde nos finais de tarde os namorados passeiam de bicicleta, os poetas sentam-se nos barcos ancorados na praia para compor e os amantes do bom papo e cerveja gelada ocupam seus bares e quiosques ao som de grupos de sambas, violões e karaokês. Tem diversão para todos os gostos. Entre os festejos do padroeiro e a Festa de final da primavera é a única diversão que a cidade tem.


Na festa da primavera um ringue é armado no meio da praça central e dois dos homens mais valentes da cidade se enfrentam numa luta que só termina quando um dos dois beija a lona e não se levanta mais. As apostas neste ano eram favoráveis a “Tião Cabeça Chata,” pequeno e parrudinho, bom de briga que só. Jovino apostou todas as fichas em “Mané Orelha,” um magrelo com cara de poucos amigos e temido por todos da cidade. Um cara covarde que fazia qualquer coisa para mostrar seu poder e ninguém se atrevia a se meter com ele, porém, as apostas eram contra ele e se ele ganhasse, Jovino ganharia uma boa grana, suficiente para que Esmeralda o olhasse de novo com cobiça e quem sabe até o perdoasse as grosserias que fez difamando seu nome a chamando de traidora e ingrata por todos os lugares que passava.


No dia tão esperado da luta todos estavam em volta do ringue, faixas de campeão com o rosto de Tião Cabeça Chata estampado já estavam sendo distribuídas entre os presente, os lutadores em seus corners aguardavam o gongo tocar como animais enjaulados e enfurecidos, Tião Cabeça Chata estava bem mais preparado, notava-se os músculos pulsando. Do outro lado Mané Orelha o encarava e só mexia os olhos acompanhando os movimentos do adversário.


Começa a grande luta, Tião Cabeça Chata avança sobre Mané Orelha que com seu corpo magro e esguio faz Tião Cabeça Chata passar por ele como um touro na arena e quando Tião Cabeça Chata ataca com um jeb de esquerda, Mané Orelha se esquiva e aplica-lhe um certeiro direto bem na ponta do queixo. Tião Cabeça Chata beija a lona algumas vezes quicando como uma bola de ping-pong até ficar estirado lá sem movimento. Vitória inconteste de Mané Orelha que é erguido pelos traíras que apostaram em um mas queriam pegar uma casquinha nas comemorações alheia. Jovino era só alegria. Gesticulava, gritava em todas as direções que agora estava de volta aos velhos tempos e que era novamente o dono do pedaço.


Esmeralda estava linda num vestido vermelho e branco transparente mostrando toda sua bela silhueta ao lado de Teixeira da Horta que só tinha olhos para Filomena e nem notou quando Esmeralda saiu de seu lado para ir caminhando pela rua principal vazia deixando seu perfume guiar Jovino, que como cuitelinho, seguia aquele botão de rosa. Alheio aquele enredo de amor, caído ao solo Tião Cabeça Chata resmungava: _Hoje foi tu tinhoso, ano que vem eu vou a forra! Começo o treinamento ainda hoje e vou mastigar sua orelha igual Mike Tyson fez com Evader Holyfield, pode esperar.


Mané Orelha comemorava nos ombros dos musculosos lutadores da academia em que treinou a vida inteira, mas os olhos de serpente não se descuidavam de Tião Cabeça Chata.


Sob as estrelas daquela última noite de primavera arestas eram aparadas, Jovino se desculpava das grosserias feitas e jurava amor a uma Esmeralda que se não estava feliz infeliz também não podia ficar, tinha lá um pé atrás com Jovino, mas reconhecia que ele era um bom homem, bronco, ignorante e às vezes até burro mas podia fazê-la reencontrar o caminho da felicidade.


Na próxima festa de São Tinhorão e na próxima festa da Primavera haverá corridas e lutas. Estaremos lá e traremos as notícias!!!!!!!!

Paulinho Freitas é compositor e sambista.







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