Advérbio de negação, por Fábio Rodrigo


Foto: Agência Brasil
Foto: Agência Brasil

Ele NÃO trabalha. E NÃO concluiu seus estudos. Para jovens como ele, nascidos e criados em bairros pobres, as oportunidades NÃO são as mesmas. Perspectivas para o futuro? Ele NÃO tem. Mora em uma região em que NÃO há saneamento básico, NÃO há infraestrutura, NÃO há área de lazer. Qualidade de vida NÃO há. A expectativa de vida NÃO ultrapassa os 65 anos. E ele NÃO faz ideia do que seja isso.


Ele NÃO foi criado por pai e mãe. Aos dezesseis anos, ele NÃO sabe nem quem são eles. Ele NÃO tem padrinho, ele NÃO tem família estruturada. Ele NÃO tem vez, ele NÃO tem voz. NÃO há quem lhe pergunte sobre seus sonhos. NÃO há quem lhe pergunte sobre seus medos e desejos. O que ele sabe sobre a vida NÃO foi a escola que ensinou a ele.


Em sua casa, NÃO há alimentação adequada. As dificuldades financeiras NÃO permitem comprar mais que o extremamente necessário. NÃO há emprego para todos da família, e ele NÃO tem uma fonte de renda. Ele sabe que NÃO pode seguir o mesmo caminho que muitos amigos seus seguiram. Todos eles NÃO tiveram vida longa. Mesmo assim, ele NÃO desiste da luta.


Ele NÃO é usuário de drogas. Ele NÃO é bandido. NÃO é assim que as autoridades o veem. Os policiais que entram na favela NÃO são bem-vindos por lá. Numa dessas operações na comunidade, NÃO foi diferente: a PM entrou atirando. De acordo com a polícia, NÃO houve óbitos no local. Mas ele NÃO apareceu em casa. Pessoas próximas afirmam NÃO saber o motivo de seu desaparecimento. “NÃO ficaremos calados”, diziam os seus familiares e amigos.


Depois de vários dias de sofrimento, NÃO há notícias sobre o seu paradeiro. Testemunhas NÃO há. Informação de qualquer tipo também NÃO. Uma nota de jornal NÃO esclarece nada. O tempo passa e NÃO se sabe mais nada e NÃO se diz mais nada...

Fábio Rodrigo Gomes da Costa é professor e mestre em Estudos Linguísticos.




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