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Baluarte Esticadinho: Um Griot. Uma entidade do Samba, por Oswaldo Mendes


Esticadinho e o neto Tavin Leandro, passista da Viradouro/Foto: Acervo Pessoal

Nos indicaram conversar com “Esticadinho”, integrante da Galeria da Velha Guarda da Unidos do Viradouro. Um Guardião da Bandeira e profundo conhecedor do Carnaval, não só na teoria, mas vivendo dentro, internamente e incessantemente a cultura afro-brasileira. Nascido na Garganta, em 1941, sua casa era exatamente atrás da barraca que os fundadores da Viradouro se reuniam. Essa barraca era de bambus, com folhas de coqueiro, à luz de lampião, os quais eram construídos a partir de bambus e com querosene.


Posteriormente trocaram o querosene dos lampiões por carbureto e muito tempo depois chegou a energia elétrica. As reuniões iniciavam cedo. Estamos falando de José Carlos dos Santos – Esticadinho. Nome artístico que adveio de seu cabelo sempre esticado, como era moda à época, pois sempre gostou de ir muito bem arrumado e de unhas feitas aos bailes.


O pai de Esticadinho, Otiniel dos Santos, era Baliza – estilo de um Mestre de Cerimônias, e sua mãe – Maria Geralda dos Santos muito o apoiava. Quando criança vendia balas, amendoim, cocada na Barraca da Viradouro para ajudar na renda de casa – o que era muito comum à época, assim como ia buscar folhas de coqueiro e bambus para reposição na barraca da agremiação.


Na localidade havia três agremiações: Desprezo, Surdina e a Viradouro, a qual foi a única que transpassou o tempo.


Cita, além de Nelson Jangada, outros nomes que participaram da fundação da Viradouro, dentre eles: Palito, Lourival, Otacílio Nascimento, Berneval Fonseca.


Esticadinho informa orgulhosamente que trabalhou, assim como toda a Comunidade, gratuitamente, quando a barraca onde se reuniam virou a Quadra da Agremiação, no caso dele como Servente de Pedreiro. Era um sonho da Comunidade que nos deu e continua proporcionando alegrias e felicidades. É um filho que nos devolve em carinho a paixão que temos dele.


Na primeira ala que efetivamente desfilou foi a Ala da Juventude, isto aos catorze anos, posteriormente como “Cidadão de Samba” – os Passistas atuais com shows na Avenida, isto entre os anos de 1955 e 1960. Participou também da Ala do Lorde, e explica que esta ala era uma das mais luxuosas da época, só competindo com a Ala dos Milionários, sendo que a palavra Lorde na verdade advém da antiga extinta empresa Companhia de Navegação Lloyd Brasileiro.


Fundou e presidiu a Ala dos Tamborins, a Ala dos Batuqueiros; fundou e participou do Conjunto Bronzeados do Samba – juntamente com Odyr Sereno, Jorge Detubi, Sérgio Mula e Gelson, os quais fizeram muito sucesso. Entrou para a Galeria da Velha Guarda do GRES Viradouro em 1989; em 1991 foi empossado como Diretor Social da Galeria da Velha Guarda onde permaneceu por 24 anos no cargo; em 2000, juntamente com o ex-presidente da Velha Guarda registraram a Galeria da Velha Guarda da Viradouro na Associação da Velha Guarda do Estado do Rio de Janeiro. Vide imagem:

Foto: Acervo Pessoal

Lembra ainda do primeiro campeonato da Viradouro, que teve naquele ano o enredo “Ararigbóia”.


Conta, Esticadinho, do baile que acontecia na Garganta, da dificuldade para trazer o gelo nos ombros, e que era obrigatório a utilização de terno e gravata. No dia seguinte era servido chocolate aos partícipes e logo às 09:00 horas iniciava um jogo de futebol fantasiado entre as alas da Viradouro. Ao final do jogo iniciava-se uma comida para todos, que podia ser churrasco. À noite continuava a festa com fogueira, batata doce, balões, aipim, melado, caldo de cana, etc.


Em 1969, no primeiro desfile do Sossego, levou o seu grupo de amigos para formar a Ala de Tamborim daquela agremiação; foi ainda presidente da Santo Inácio de 1985 a 1995; em 1960 atuou como Mestre Sala nesta agremiação, assim como teve outros cargos de Diretor Social e Tesoureiro.


Relata também que fundou, juntamente com outros integrante da Velha Guarda, o Conjunto Musical da Viradouro, o qual obteve bons resultados e que espera um dia sua reativação.


Com três irmãos, todos falecidos; dez filhos, porém, para o samba, somente seu neto, que é também neto de outro Baluarte - o Moacyr MM, que é o Tavin Leandro - o qual sente muito orgulho e que faz parte na Viradouro. Veja o vídeo:



Outro ponto que lembra com muita saudade era da festa que acontecia no Dia das Mães, a qual era realizada pela Galeria da Velha Guarda, sempre no terceiro domingo de maio, festa que está parada há dez anos, mas foi realizada por quinze vezes, dando muita alegria a todos os segmentos da Escola.


Explica Esticadinho como eram construídas as alegorias da época com papelão de carne seca, varas de bambu, “papel de chumbo” e barro; moldavam e entregavam aos artistas da Comunidade para finalizarem as esculturas. Informa ainda que levavam os carros alegóricos empurrando até a avenida e com uma vara de bambu iam levantando os cabos elétricos que encontravam pelo caminho, mas que as avarias eram muitas, assim tinham que retocá-las antes dos desfiles.


Ao final do desfile, a Comunidade trazia de volta todas as alegrias. Muito suor, esforço, mas sempre recompensava ver a Viradouro ser campeã.


Em 1964 e 1965 a Viradouro foi desfilar no Rio de Janeiro, exatamente na Praça XI, sendo que em 1965 chegaram às 23:00 horas e só foram desfilar às 14:00 horas do dia seguinte, inclusive com sérias avarias em seu carro alegórico o qual tinha um bolo. O resultado não foi promissor e a decisão foi retornar a desfilar em Niterói.


As cores originais da Viradouro eram azul e rosa - em homenagem às cores do manto de Nossa Senhora Auxiliadora, declarada pelos fundadores a padroeira da agremiação, pois a igreja fica situada em Santa Rosa, perto da Garganta; e como protetor o São João Batista, visto que a fundação foi em 24 de junho de 1946, quando Esticadinho tinha cinco anos.


As cores das agremiações eram cercadas de muito louvor, por todas as escolas, porém, em 1966, as fábricas de tecido entraram em crise e vieram à falência, iniciando assim uma escassez no mercado; então a reutilização do material, que foi criticado pelas Escolas de Samba concorrentes, foi se refletindo nas notas. Era necessário tomar uma decisão para troca das cores para não continuar a prejudicar a agremiação, daí veio a decisão para o vermelho e branco, isto em 1970, sendo que foram novamente campeões em 1971.


Chama a atenção, o Baluarte, que há muito tempo não se vê mais homenagens à padroeira. Relata também que foi acertada a mudança de endereço da Escola de Samba da Garganta e que diversos troféus que ficaram na antiga quadra foram extraviados e a quadra ocupada posteriormente como residência.


Participou da Associação das Escolas de Samba de Niterói e São Gonçalo com Ito Machado e Beirute; em 2006 assumiu a Representação da Velha Guarda da Viradouro na Associação das Velhas Guardas do Rio de Janeiro, isto por quinze anos; assumiu também o cargo de Diretor Social da Associação da Galeria das Velhas Guardas, isso em 2013 e em 2016 foi conclamado como ‘Avô Sambista”. Foi ainda presidente, Diretor Social, Tesoureiro, Presidente da Ala dos Tamborins da Santo Inácio e foi também Mestre Sala, em 1960.


Em 2016 foi citado no enredo do Garra de Ouro, visto sua atuação na área de Pendotiba e que a Viradouro foi a primeira escola desta região, depois vieram a Santo Inácio, a Gavião, a Sossego e posteriormente a Mocidade de Pendotiba.


Relata que a comunidade do Sossego, desde os anos de 1970, utilizava um terreno para suas atividades, porém, em torno de dois anos atrás, a Prefeitura de Niterói cerceou sua Comunidade da sua alegria sem explicação dos motivos.


Participou do Bugres do Cubango, Souza Soares e Cubango com o Conjunto Bronzeados do Samba e Acadêmicos do Beltrão como Mestre Sala. Esclarece que com relação ao Cubango, sua participação foi a pedido de Ney Viana e que naquele ano teve como enredo “Minha Canoa”.


Relembra do amigo Geraldo Babão que, em visita à sua casa com seu novo disco de samba que iria disputar na Corações Unidos e, ao colocar para tocar, a vitrola parou e assim o Geraldo concluiu que a música era “da pesada”, gíria utilizada na época. Relembra ainda do amigo Jamelão, presença constante na Comunidade do Viradouro.


A GRES Unidos do Viradouro tem como base a inclusão, o amor, a união, a Justiça, à valorização da pessoa, refutando qualquer tipo ou forma de preconceito, cita o Baluarte dentro da sua gigantesca experiência de vida.


Como definir o Baluarte José Carlos dos Santos, Esticadinho com sus 79 anos de idade e sessenta e cinco anos de Viradouro? Uma biblioteca viva. Um GRIOT. Uma entidade do Samba!


O carnaval, em contradição à grande parte das mídias, é realizado ou teve sua construção baseada no sonho de Comunidades e assim elas devem ser valorizadas.


A Viradouro chega aos seus 74 anos é deve valorizar suas bases, suas raízes, seus Baluartes, os quais muitos esquecem de homenageá-los, de dar a devida responsabilidade histórica por tudo isso que a Escola alcançou, e quem segurou com mãos fortes à bandeira nos momentos difíceis. Sem Comunidade, sem Harmonia, sem Compositores, sem Mestre Sala e Porta Bandeira, sem a Bateria, sem a Galeria da Velha Guarda não existe Escola de Samba.


Parabéns a GRES Viradouro pelos seus setenta e quatro anos de existência. Parabéns a todos os que sonharam e materializa-lo, construindo assim sua história dia a dia.


Saúde e vida longa a todos, Guardiãs e Guardiões da Bandeira, a toda Galeria da Velha Guarda e todos os segmentos da GRES Unidos do Viradouro. “O brilho no olhar voltou!”


***

Nota do editor: Griot, segundo conceito disponível na enciclopédia aberta digital Wikipedia, é 0 indivíduo que na África Ocidental tem por vocação preservar e transmitir as histórias, conhecimentos, canções e mitos do seu povo. Existem griots músicos e griots contadores de histórias. Ensinam a arte, o conhecimento de plantas, tradições, histórias e aconselhavam membros das famílias reais. Muitos são intelectuais instruídos no Alcorão por influência islâmica, o que explica por que a maior parte da epopeia africana origina em países com forte presença islâmica na vida, pensamento, arte e história da comunidade.

Oswaldo Mendes é engenheiro.




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