Boleto, por Fábio Rodrigo


Reprodução internet
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Ficou imensamente feliz quando pagou seu primeiro boleto. Chegara aos dezoito anos de idade, e aquela era uma sensação única. Não era pra menos, pois atingira a sua independência financeira. “Virou um homenzinho”, “Já paga suas próprias contas”, era o que os amigos e familiares diziam sobre ele. Era seu primeiro emprego. Estava satisfeito apesar de seu salário irrisório. Mesmo assim, foi logo abrindo crediário em grandes lojas do varejo. Queria mostrar a seus pais que era autossuficiente. Reformou seu quarto e deu uma repaginada em seu guarda-roupa. Mas tudo tinha um preço. No mês seguinte, vieram os boletos para pagar. Tudo em doze vezes. E a cada mês, novas compras. E mais e mais boletos. Era trabalhar e pagar boleto. Às vezes sobrava um dinheirinho para sair com sua gata pelo shopping.


Conseguiu melhorar seu vencimento, ao ser promovido para um cargo de confiança na empresa. Desta forma, bancou uma obra no terreno de seus pais e ali fez um puxadinho. Boletos e mais boletos de lojas de materiais de construção. Em dois anos, sua casa ficou pronta. Tratou logo de mobiliá-la. Boletos e mais boletos de lojas de móveis. Casou. Ele e sua esposa dividiam as despesas da casa. Vieram novos boletos: água, luz, telefone, internet... Controlando os gastos, dava pra pagar religiosamente cada um deles. Nasceu seu primeiro filho. Mais boletos do enxoval do bebê, de alimentação, de plano de saúde... Agora a renda dos dois não era suficiente para arcar com a despesa da família. Nos finais de semana, enquanto ele fazia bicos de garçom, sua esposa trabalhava como manicure para poderem pagar boleto.

As despesas aumentavam. Passou a fazer serviços de pintura nos dias de folga da empresa. Era o que precisava para pagar boleto. Mesmo assim, a grana era curta. Virou motorista de aplicativo durante a noite e início da madrugada. Acordava às seis da manhã par ir ao trabalho, largava às dezoito horas e, em seguida, rodava com o carro pelo seu município. Às vezes, dava também esticadas até cidades vizinhas. Em casa, sua esposa vendia lingeries e fazia salgadinhos para encomenda. Todo sacrifício era pouco para pagar boleto.


A idade chegou. O baixo salário de aposentado não permitia bancar despesas com médicos, exames, remédios... Fazia então vários empréstimos com juros exorbitantes. Boletos e mais boletos chegavam. Aos 80 anos, morreu de infarto fulminante e foi enterrado em cova rasa. O velho estava inadimplente com a assistência funeral. Motivo: não pagava boleto.

Fábio Rodrigo Gomes da Costa é professor e mestre em Estudos Linguísticos.





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