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'Cambada', de Erick Bernardes, reforça o poder da história oral na crônica literária

Por Nivea Sandden

O livro Cambada: crônicas de papa-goiabas toma o substantivo coletivo de caranguejo (cambada) como metáfora central da obra, no intuito de relacionar esse importantíssimo crustáceo ao povo gonçalense. Ambos são resistentes e se mostram hábeis guerreiros na luta pela sobrevivência. Cambada é, antes de tudo, um volume de textos de vertente literária com foco no município de São Gonçalo. Isto quer dizer que, em hipótese alguma, o livro se pretende fazer conhecer como uma obra de caráter documental.


Em sua maioria, seus enredos e descrições se baseiam em narrativas orais que por vezes são permeadas por mitos ou invenções populares, misturando datas, acontecimentos ou épocas. Tanto assim que, ainda que fontes condizentes com a história oficial das regiões tematizadas surjam, não raramente, lanço mão, no mesmo texto, de duas ou três versões da mesma história, para que o leitor conheça também esse viés fabular oferecido pelos moradores.

Cito, por exemplo, a crônica sobre a localidade Capote, com três ou mais versões fictícias acerca do lugar. Outra vez, falo sobre o bairro Alacomba, cuja versão oral e mais ficcional se revela bem mais lógica do que a versão oficial. Em alguns momentos, carecendo de fontes locais, como a que trata do bairro Vila Candoza, por exemplo, busquei (via internet) entrar em contato com pessoas de Portugal para que ao menos me fornecessem algum mato seco no qual eu pudesse me agarrar, frente à torrente de ignorância em que me encontro.


Contudo, vale ressaltar, na maioria dos casos, o autor esteve presente fisicamente nos bairros, no intuito único de coletar informações e fotografar o entorno. Em alguns casos, houve grande proveito, como nos sítios históricos do Largo da Ideia e da visita ao Barro Vermelho (lugar onde viveu minha mãe), entretanto, em outras incursões, pouco ou nada conseguia extrair de concreto, recorrendo, enfim, à narrativa fabular dos próprios munícipes.


Isto posto, fica esclarecido aos críticos e puristas da “História”, de que o livro Cambada não é um tratado histórico, tampouco livro didático. Recomendo, contudo, aos que desconhecem a espécie literária crônica, uma breve visita ao seu real conceito ou definição.


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