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Cancelaram a única alegria gonçalense, por Mário Lima Jr.


Conheço só um município brasileiro onde o trânsito pare, bem no centro da cidade, por causa de um brinquedo usado por milhares de crianças e adultos ao mesmo tempo. São Gonçalo. Será que existe outro tão infantil, frágil e desorganizado? De acordo com os números oficiais (que parecem bem abaixo da realidade), mais de 5 mil pessoas se reúnem uma vez por ano dentro do Clube Mauá para brincar de soltar pipa. Pelo visto, a festa não se repetirá em 2019. Segundo a Prefeitura Municipal, o Festival de Pipas desse ano “foi interditado pelo 7º Batalhão de Polícia Militar, que constatou a falta de estrutura do clube para sediar um evento desse porte”.


O Clube Mauá chegou a anunciar o 35º Festival de Pipas nas redes sociais, previsto para o dia 18 de agosto, terceiro domingo do mês. Sinal de que a direção do clube discorda da polícia e acredita que possui as condições necessárias para abrigar o evento, como faz há anos. Até agora nenhuma das três instituições envolvidas – Clube Mauá, Prefeitura de São Gonçalo e Polícia Militar – veio a público explicar os detalhes da interdição. Por exemplo, sob qual base legal ela foi aplicada e se o evento, dentro de um espaço privado mas com apoio da Guarda Municipal e da Subsecretaria de Fiscalização de Posturas, possuía autorização da Justiça.


Em nenhuma outra ocasião, em nenhum outro local, o gonçalense é mais autêntico do que no Festival de Pipas. Outras cidades têm o seu, mas o festival gonçalense é mais intenso. Porque é o único momento de lazer que existe para o povão, para a massa de uma população de um milhão de habitantes sem parques, sem espaços de convivência e com raras festas populares. Todas as manifestações sociais de alegria e diversão dos bairros estão lá, a disputa pela pipa voada, a gritaria entre a criançada, o bate-papo, o sanduíche e a cerveja entre amigos. Refém da violência e da falta de infraestrutura, em São Gonçalo a pipa empinada da lage de casa ou da janela assume importância maior do que o futebol.


Dentro do Clube Mauá os frequentadores do festival contam com ambulância, enfermeiros, fiscalização e revista constantes. O espaço é aberto, enorme, com risco reduzido de incêndio ou de pisoteamento. Fora do Mauá, com o uso ilegal de linhas com cerol e a multidão ocupando as vias, existe um problema de segurança pública a ser resolvido que não pode ser usado como justificativa para o cancelamento de uma tradição popular, aguardada o ano inteiro.


Costuma ser fácil apontar culpados pela falta de preservação daquilo que é caro ao povo. E se esquecer da urgência de uma ampla conscientização. Às vezes restritiva em excesso, a Polícia Militar preza pela segurança em primeiro lugar. O Clube Mauá, que já viveu dias melhores, faz um belo trabalho como sede do Festival de Pipas. E o Governo Municipal aloca boa parte dos seus poucos recursos o apoiando. Ainda que de forma precária, cada instituição demonstrou esforço ao longo do tempo. Desta vez talvez seja melhor que os gonçalenses apenas reconheçam que a cidade pobre, violenta e suja onde vivem ganha esse ano outro adjetivo. Triste.


Mário Lima Jr. é escritor.


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