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'Caranguejo sobe em árvores' e a forra gonçalense

A saga mítica do escritor Erick Bernardes, que agora tem suas obras disponíveis na Biblioteca Municipal em espaço exclusivo para escritores da cidade

Erick diz ter sofrido preconceito por ser gonçalense/Foto: Divulgação

A Biblioteca Municipal de São Gonçalo Genebaldo Rosa, localizada no bairro Mutondo, conta com um acervo de mais de 35 mil livros catalogados e reserva um espaço especial para diversos autores gonçalenses, entre eles Erick Bernardes, nascido em uma maternidade de Niterói há 42 anos, mas gonçalense de adoção e criação.


Erick Bernardes é professor de língua portuguesa e durante certo tempo de sua vida pensava em escrever um livro que falasse das lendas e mitos de São Gonçalo, como as histórias que ouvia de seus avós e pais. Ele queria algo despretensioso, como foi o seu primeiro livro chamado "Panapaná Contos Sombrios", que foi uma realização pessoal, sem fins didáticos. Porém, para sua surpresa, esse livro chegou às escolas, e os alunos começaram a estudá-lo, mesmo sendo uma obra de ficção, mas com contexto gonçalense abordando o Palacete do Mimi, Ilha de Itaóca entre outras histórias. Com isso, foi bem recebido pela classe pedagógica de São Gonçalo.

Com o sucesso do livro, passou a dar palestras sobre ficção e ao longo do tempo percebeu que os alunos se interessavam mais pela parte histórica, então sentiu uma responsabilidade muito maior ao escrever. Nesse tempo, já era cronista do periódico gonçalense Jornal Daki, sugeriu então ao seu editor-chefe, Helcio Albano, reunir em livro as crônicas publicadas no jornal, que resultou no livro Cambada: crônicas de Papa-goiabas. O livro, publicado pela editora Apologia Brasil, tem 40 crônicas de histórias de São Gonçalo.


Com todos esses acontecimentos criou o símbolo do caranguejo, que compara ao gonçalense, a partir de um preconceito que sofreu por ser de São Gonçalo. Ouviu que os nascidos na cidade não assumiam sua naturalidade, que eram como caranguejos pois se escondiam, era como se enfiassem no buraco, com vergonha da sua origem. Mediante esta situação foi buscar ajuda na sociologia, que afirma que o preconceito é a falta de conhecimento e resolveu estudar o crustáceo em questão para desconstruir essa imagem e viu que segundo os biólogos, eles não andam para trás, são resistentes, adaptáveis para o equilíbrio ecológico dos manguezais e algumas espécies sobem em árvores para atingir o topo. 


Este seria o símbolo de resistência e superação do gonçalense. Forte e adaptável, ele chega ao topo se quiser. Vinculando a figura de linguagem ligada ao caranguejo ao sentido de pertencimento do gonçalense, entende-se os crustáceos do mangue como guerreiros desejosos de superar limites. Isso é mais que uma figura ilustrativa, esse substantivo coletivo (cambada), pois trata-se de um motivo para reflexão. Ninguém vence sozinho na vida, tampouco os caranguejinhos sobrevivem se não forem persistentes e unidos. 

- Minhas crônicas, muitas são orais, ou seja, histórias que ouço dos moradores, que muitas vezes são permeadas pela ficção, pois sabemos como age e trabalha o imaginário popular. Mas quero mesmo é trazer e registrar a história oral, que sempre cai no gosto popular. Meu objetivo sem dúvidas é divertir o leitor, proporcionar entretenimento de qualidade, criar mundos ficcionais para deleite de quem se dispõe a ler meus textos. Em segundo plano, como contrapartida, busco promover a educação através da história dos bairros e lugares do Brasil afora - declarou Erick Bernardes.


Bernardes participou do ato de doação dos títulos da editora Apologia Brasil à Biblioteca Municipal, no Dia Nacional do Livro, comemorado na última terça, 29 de outubro. Além do Panapaná e do Cambada, foram doadas mais seis obras, entre elas, cinco da coleção Cadernos do Leste, todas escritas por autores da cidade, dos mais diversos assuntos, que agora estão disponibilizadas no espaço exclusivo para escritores da terra.


Conhecendo o autor:

Erick Bernardes é Mestre em Estudos literários pelo Programa de Pós-graduação em Letras e Linguística (PPLIN), da Faculdade de Formação de Professores (FFP), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). É professor universitário, palestrante, crítico literário e cronista de alguns jornais fluminenses (jornal Daki, jornal Diário da Poesia, jornal A Voz da Serra) e também autor do livro Panapaná: contos sombrios. Atua como parecerista, prefaciador e revisor de periódicos para editoras. Também trabalha em coautoria de livros dedicados à área da educação. 



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