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Carnaval: torcer contra ou a favor, por Oswaldo Mendes


Porto da Pedra. Foto: Juliana Dias/SRzd

Diversas cidades do Brasil e do mundo fazem festas com o sentido de comemorar o sucesso da sua colheita, seja na Festa da Uva, do Tomate ou até mesmo da Laranja. Isto não é um procedimento novo, advém de muito tempo Antes de Cristo – AC.


Há diversos sites sérios que amparam a afirmação acima, inclusive muitos de Universidades Públicas – as quais têm quase integralmente toda a pesquisa que acontece neste país.

Uma festa pagã repassada de forma verbal de geração para geração – Griots.


Chega no Brasil entre os séculos XVI e XVII - antigamente se ensinava números romanos nas escolas, mas decifrarei como séculos dezesseis e dezessete e logo se adapta.


Quem teve a chance de ler o livro “A Dialética do esclarecimento” – Adorno & Horkheimer consideramos que fica com dúvida sobre a Humanidade, mas a posição e definições de Habermans deixam bem mais claro, ao nosso olhar.


O Mundo da Vida e o Mundo dos Sistemas.


O Mundo dos Sistemas quer padronizar. Tem medo das variações, mudanças, da liberdade. Já o Mundo da Vida, ao contrário, é liberto, livre, solto, mutante.


Qual mudança que adveio de dentro das fábricas? Citemos uma. Uma única.

As mudanças acontecem nas ruas, praças, teatros, cinemas, nos bares, no carnaval. O mundo dos Sistemas sempre quer padronizar para correr menos risco de mudanças e o Mundo da Vida não pode deixar que isto aconteça.


Isso explica o ataque de regimes totalitários à Cultura, Cinema, Artistas, Carnaval. Toda mudança advém das ruas, do Povo.


“A festa carnavalesca é o momento de total inversão do regime dominante: a liberação, ainda que provisória, a abolição das hierarquias, regras e tabus, o congraçamento pagão. Desejos oníricos de um lugar outro e de um tempo outro, de uma utopia e de uma ucronia. Tal abolição tem um sentido especial. Nas festas oficiais, as distinções hierárquicas, com insígnias, títulos, discursos e pompas, marcavam intencionalmente as desigualdades. Na festa popular, o ideal utópico e o real constituíam uma parte essencial da visão carnavalizada da vida e do mundo. Em consequência, essa eliminação provisória, ao mesmo tempo ideal e efetiva, das relações hierárquicas entre os indivíduos, criava na praça pública um tipo particular de comunicação, inconcebível em situações normais (BAKHTIN, 1993, p. 9).”http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/index.php?option=com_content&view=article&id=1117%3Acarnaval-origem-e-evolucao&catid=38%3Aletra-c&Itemid=1


Logo, quem quer controlar odeia carnaval, pois é crítico e livre. Esse é o verdadeiro medo, não de outras coisas que utilizam como subterfúgio, dentre elas, o sexo fácil.


Quem não se lembra do carnaval de 1988 quando se discutiu sobre os cem anos da dita abolição e se com a Tuiuti repetiu em 2018; há trinta e cinco anos a Caprichosos de Pilares com a temática “E por se falar em saudades” ou até mesmo quando a GRES porto da Pedra levou para a avenida em 1998, com meus saudosos e queridos Lelego e Lambel, com o enredo “Samba no Pé e Mãos no Alto – Isto é um Assalto”.


Imaginem se citar Beto sem Braço ou Aluísio Machado no GRES Império Serrano que este ano tem como enredo “Lugar de Mulher é onde ela quiser” ou a Mocidade Independente de Padre Miguel com a divina Elza, a Viradouro contando a história de onze gerações de Mulheres Guerreiras, da Portela com o enredo "Guajupiá, Terra sem Males." que eram índios que habitavam o Rio de Janeiro e a GRES Mangueira com o enredo “A verdade vos fará livre”, numa época de fake news, dentre outros.


Vejam esse vídeo do carnaval de 1996, com o Império Serrano, do Magistral Aluísio Machado e Cia: https://www.youtube.com/watch?v=ePS8rd6qItw


Blocos de ruas também vêm quase todos com críticas sociais. Essa é a grande verdade.


E para a economia? O atual Governador do Rio declarou que entrou nos cofres públicos do Estado do Rio de Janeiro em 2019 em torno de 4,7 bilhões de reais. Cada Escola de Samba gasta em torno de 12 milhões, emprega centenas de pessoas e tem gente que acredita na historinha de facebook de trocar o dinheiro do carnaval por escolas, mas não cita quanto paga aos Professores e Médicos. Na maioria das vezes são os fanáticos ou gente querendo enganar os incautos.


Muita gente consegue ver demônios e diabos no carnaval, mas deixando a intolerância de lado pode-se ter outra visão. Uma festa popular. Cultura Popular. Cristianismo também é importante, mas deve respeitar os demais segmentos religiosos, o qual religião tem em seu radical a função de religar, nuca dividir.


Carnaval dá empregos a milhares de pessoas e logicamente renda.


Quantas pessoas conseguiram comprar um quilograma de arroz com seu trabalho como ambulantes, catadores de latinhas, músicos ou cozinheiras no Bloco da Banda do Zé Garoto, da Banda Gonça ou do Tem Chifre mas não Fura? Como estaria o comércio do Porto da Pedra sem o Tigre?


As guerras e o turismo são as maiores fontes de renda. É só escolher qual quer.


Não gosta de carnaval, vá para um retiro espiritual, não precisa ligar na Globo. Tem diversos canais religiosos. Há cidades que pulsam nesta época como toda a Região dos Lagos e outras regiões ficam menos agitadas. É só planejar o que quer e ir. Não gosta de carnaval, mas não precisa torcer contra.


Motoristas, seguranças, eletricistas, médicos, camareiras, porteiros, vigias, engenheiros, vendedores ambulantes, bailarinos, artistas plásticos, soldadores, Técnicos de Segurança do Trabalho e outros profissionais trabalharão no carnaval, levando assim, honestamente, seu suado salário para dentro de casa.


Uma festa popular que deve ser respeitada. O Mundo da Vida em sua maior expressão.

Oswaldo Mendes é sambista e engenheiro.


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