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Chegou chegando, por Fábio Rodrigo


Óleo em tela: Juarez Machado

Estávamos eu e minha esposa em um steakhouse localizado em uma região nobre da cidade. Estar neste local é privilégio para poucos, já que grande parte de seus frequentadores pertencem a uma camada social de bastante prestígio da nossa sociedade. De repente, um simpático sujeito, que não se enquadra nesse perfil social, surgiu inesperadamente pra puxar uma conversa. E como ele mesmo disse: chegou chegando.


Era um sujeito de aproximadamente 50 anos e traje simples. Após atingir a um nível de embriaguez, ele se levantou de sua cadeira e, imaginando que estivesse em sua casa, resolveu bater um papo com um desconhecido. Que, neste caso, era eu. Muito provavelmente era sua primeira oportunidade de estar naquele local. E, por isso, exagerou na bebida. Observei que todos à nossa volta reprovavam o jeito excêntrico do sujeito.

Ele contava que o que ele gosta mesmo é de beber bebendo. Tive que dizer em tom sarcástico que eu não tinha dúvidas disso. Ele, no entanto, não entendeu minha piada e continuou falando. A todo momento, ele usava expressões como estas: “conversar conversando”, “falar falando”, “dizer dizendo”, “olhar olhando” etc. Era um sujeito que, com seu jeito malandreado e irreverente, conquistou minha atenção. Poderia ter chamado o gerente para mostrar meu repúdio quanto à presença daquele homem na minha mesa. Era o que muitos talvez fizessem no meu lugar. Preferi não fazer isso. Achei por bem ouvi-lo. Era a forma que eu tinha de dar voz a um expoente de uma camada subalterna, que muito tem o que dizer apesar de não lhe darem espaço para isso.


Já havíamos pedido a conta, e o sujeito não desgrudava de nossa mesa. Quando finalmente nos levantamos para ir embora, o sujeito, encabulado com a nossa decisão, manifestou seu desapontamento. Não tive outra saída senão dizer: “Está na hora de partir partindo”. Ele deu uma sonora gargalhada, e saímos satisfeitos.

Fábio Rodrigo Gomes da Costa é professor e mestre em Estudos Linguísticos.





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