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Cinco crianças e eu brincando na Praça do Bandeirante durante a guerra na Alma e no Miriambi

Por Mário Lima Jr.

Foto: Alex Ramos/O São Gonçalo

Meu filho me pediu pra deixar ele tomar um açaí com os amigos no fim da tarde. Como negar isso a um menino de 9 anos? As crianças do meu bairro ficaram um período sem brincar ao ar livre, depois não aguentaram mais o isolamento. No primeiro ponto de encontro, a esquina da nossa rua, o grupo decidiu que tomaria o açaí na Praça do Bandeirante, a um quilômetro e meio de distância. Me senti enganado, pensei que a gente fosse comprar o açaí do vizinho. “Vamos, tio?”, perguntaram ao único adulto presente, eu. Engoli em seco, o tiro tava comendo solto naquela semana nas comunidades perto da praça. Avisamos aos pais dos meninos, silenciosamente me despedi da vida, sem ninguém perceber o medo que sentia, e partimos.


Não andava uma distância tão longa no meio de tantas crianças desde que eu mesmo era criança. Uma de cada vez, elas assumiam a liderança do grupo andando praticamente de costas para que as demais ouvissem suas histórias. Se alguém falasse algo errado ou contasse uma mentira óbvia, era zoado pelos amigos, perdia a liderança da expedição e naturalmente se deslocava para as últimas posições do grupo na calçada. Sem saber onde era meu lugar, fiquei perto dos menores, que poderiam precisar de mais proteção.


Nosso grupo era tão exótico que despertava o interesse das pessoas na rua. Não é uma cena comum um adulto de 1,92m com cinco garotos rindo e caminhando por áreas dominadas pelo tráfico de drogas do Vila Três, Miriambi, Raul Veiga e Almerinda. Assumimos o posto de reis do 2º e do 3º distritos de São Gonçalo. Ouvindo nossa gritaria, crianças apareciam nas janelas de suas casas pra ver o que era aquilo, assustadas com a novidade. Tímidas, algumas davam tchau e ninguém do nosso grupo soberbo respondia.


Em frente à Praça do Bandeirante, entramos em uma lanchonete moderna, pintada de roxo e verde fluorescente. Só tinha a gente lá na hora e os vendedores. O brilho no olhar dos garotos mostrava que eles acreditavam que todo aquele açaí era deles, além do sorvete e das coberturas variadas. Comprei um copo de sorvete pequeno, sem nada por cima, já o copo de açaí dos meninos tinha quase dois palmos de altura, eu não aguentaria comer.


Durante o lanche, outro pedido.


– Tio, quando a gente acabar o açaí, a gente pode brincar um pouco ali na praça? – mais uma vez concordei amedrontado, eu sabia que não seria “um pouco”.


Atravessar a rua deu trabalho, segurei nas mãos dos pequenos e observei os maiores de perto. Do outro lado a festa começou de verdade. Foi cada criança para um canto correndo e eu assistindo a debandada paralisado. Uma subiu no banco de concreto, outra se pendurou na árvore, teve menino balançando a lixeira pra arrancá-la e outro gemendo e fazendo movimentos pélvicos montado nos aparelhos de ginástica da praça destinados aos idosos. Mudo, só rezei a Deus que não tivesse tiroteio por enquanto.


Eu não tinha nenhuma influência sobre a vontade daquelas crianças. De repente resolveram brincar de pique-cola e pelo menos se tornou previsível onde estariam, caçando umas às outras. Sentei no banco e fiquei observando os minutos passarem, ansioso pelo avanço do tempo. Logo não aguentei, a voz saiu, chamei todo mundo pra voltar pra casa e felizmente eles obedeceram na hora.


A volta foi com a mesma animação, além do suor, das bocas sujas de açaí e das histórias recém vividas na praça. Aceitei o pedido de passeio por um motivo simples: São Gonçalo precisa brincar. Sem o mínimo de diversão e prazer, ainda que com restrições, não seremos capazes de construir uma cidade.

Mário Lima Jr. é escritor.




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