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Cinco vezes violentados na lama do Clube Mauá, por Mário Lima Jr.


Foto: Divulgação

O Governo Witzel descumpriu cinco datas de inauguração do Hospital de Campanha de São Gonçalo, segundo matéria publicada no G1. A cada atraso na entrega, o nome da cidade e sua população são pisoteados no campo de futebol enlameado do Clube Mauá, depois da chuva. A próxima violência, caso a inauguração seja adiada de novo, está marcada para sexta-feira, dia 12.


De acordo com os números oficiais mais recentes, São Gonçalo acumula 9.308 casos suspeitos de COVID-19. Pessoas que foram obrigadas pelos sintomas da doença a buscar uma unidade hospitalar e que sequer conseguiram ser testadas a fim de confirmar a presença do vírus no organismo. Além delas, 2.032 pessoas testaram positivo para a doença e 243 morreram. Com o Luiz Palmier, principal hospital gonçalense, esgotando 100% da sua capacidade de atendimento, como informado pelo governo municipal, o hospital de campanha poderia ajudar a evitar mortes e sofrimento.


A Secretaria Estadual de Saúde faz questão de deixar claro que não há garantias de que o Hospital de Campanha de São Gonçalo será realmente inaugurado dia 12, um mês e meio depois do inicialmente previsto. Fernando Ferry, gestor da pasta, disse em entrevista que precisa fazer um inventário dos itens comprados para o funcionamento da unidade e tomar conhecimento das atuais necessidades. Informações que deveriam estar prontas, atualizadas desde o início das obras e ao alcance de qualquer cidadão.


As desculpas da Secretaria Estadual de Saúde são revoltantes, mas não causam estranheza visto que o governo do Rio fazia um voo cego, financiado pelo dinheiro público, depois de deixar o controle total da construção e gestão dos hospitais de campanha com o Instituto de Atenção Básica à Saúde (Iabas), afastado por conta do atraso. Apenas o Hospital de Campanha do Maracanã foi inaugurado, e com severas restrições. O povo do Rio de Janeiro ainda aguarda a entrega dos hospitais de Nova Iguaçu, Duque de Caxias, Nova Friburgo, Campos dos Goytacazes e Casimiro de Abreu. E o Iabas, que recebeu antecipadamente mais de R$ 200 milhões das mãos generosas de Witzel, é alvo de investigação da Polícia Federal por fraude contratual.


O Governo Witzel faz repetidas promessas à população gonçalense sem qualquer cálculo de estimativa confiável para cumpri-las. Citar São Gonçalo, dona do segundo maior universo eleitoral do estado, rende votos para políticos de qualquer partido, eleitos ou não, principalmente quando a exploração acontece durante um momento de desespero. Não à toa o local da construção do hospital, no Clube Mauá, é palco disputado por parlamentares (alguns muito mais civilizados do que outros) que compartilham suas visitas ao canteiro de obras ao vivo nas redes sociais (Jornal Daki).


Já a classe política de Niterói e Maricá tirou suas cartas da mesa no jogo eleitoral que envolvia São Gonçalo e o repasse de R$ 90 milhões. Os municípios alegam que o governo estadual, que receberia os recursos para apoiar a construção do hospital de campanha gonçalense, não apresentou um plano de trabalho detalhado para execução dos serviços.


A desistência não deixa de ser uma vergonha tão grande quanto a oferta de auxílio e o atraso das obras. A saúde do povo gonçalense, direito constitucional, foi transformada em moeda de troca por nossa dignidade. Em objeto de caridade, em que o povo espera morrendo pela misericórdia vizinha, superior. A Saúde foi até usada como pretexto para discurso isolacionista, como se os gonçalenses fossem uma raça que precisasse ser isolada e tratada à distância. Os mesmos gonçalenses que ontem formaram uma fila gigantesca, no bairro do Rocha, para receber frutas e legumes distribuídos de graça por uma casa de shows.

Mário Lima Jr. é escritor.




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