Coisa da Pandemia II: Na vitória e na derrota, por Paulinho Freitas

SÃO GONÇALO DE AFETOS

Adelino e Almir eram dois amigos inseparáveis desde os tempos de adolescência. Amigos de largar a namorada esperando para ajudar o outro em alguma confusão que tivesse arrumado. Mais que irmãos, muito mais. Certa vez Almir saiu numa sexta feira a noite e foi para a esbórnia. Bebeu um pouco além da conta e começou a passar mal ali na Zona do Mangue. Quiseram chamar a ambulância mas ele não deixou, pediu que ligasse para a casa de Adelino. Ao saber do ocorrido Adelino pegou o carro e saiu feito uma flecha para socorrer o amigo.


Quantas enrascadas um safou o outro. Padrinhos de casamento um do outro. Padrinho dos filhos um do outro e chamados carinhosamente de Cosme e Damião pelos vizinhos e amigos.

Quando a Covid 19 chegou ao Brasil, uma das primeiras pessoas a sofrer seu poder de infecção foi Almir. De uma hora para outra começou a ter febre e falta de ar, teve que ser internado e intubado. O amigo só faltou querer se internar junto. Fez promessa pra tudo que é santo e ligava varias vezes por dias para o hospital e todo o tempo livre que tinha lá estava ele na recepção querendo notícias do amigo.


Almir, intubado e dopado só podia mexer o pensamento, o resto estava paralisado. Começou a pensar na vida como se ela fosse um filme. Em todas as cenas o amigo estava. Nos momentos mais felizes como em seu casamento, nascimento dos filhos, datas importantes, os dois sempre comemorando juntando as famílias. Nos momentos ruins como da vez que ele estava desempregado, até empréstimo Adelino pegou para ajudar o amigo e ainda lhe arranjou outro emprego. Ele retribuía a altura ajudando também em tudo que o amigo precisasse. Não conseguiriam viver um longe do outro.


Houve um dia em que a mulher de Almir perguntou a ele se ela mandasse escolher entre ela e o amigo Adelino o que ele responderia. Ele disse que iria sentir uma saudade danada dela. Não duvidem de uma amizade sincera. Conheço algumas e tenho alguns amigos que já fizeram por mim o que eu acho que não teria feito por eles antes. Sempre que passava ali pelos lados do Gradim eu perguntava sobre a saúde de Almir, as pessoas quase choravam ao falar que ele estava com setenta e cinco por cento dos pulmões comprometidos e que o amigo Adelino definhava a olhos vistos. Eu ficava muito triste.


Hoje tive que sair par fazer umas compras e havia uma queima de fogos muito grande lá na Praça do Gradim, Adelino fez um churrasco em casa com música alta e fartura de bebida comemorando a volta de Almir para casa. Bebia, cantava e soltava fogos, ladeado da mulher e dos filhos. Na casa em frente Almir, na cadeira de rodas, acenava para o amigo com um copo de suco de frutas nas mãos. Os dois já prometeram que o dia em que esta pandemia for embora vão fazer uma festa que São Gonçalo jamais esquecerá. Será a maior louvação a vida que já se teve notícias, um louvor à amizade. Eu tô nessa!


XÔ COVID!!!!!!!!!!!!!!

Paulinho Freitas é compositor, sambista e escritor.






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