Coisas da Pandemia VI: Essas crianças... Por Paulinho Freitas

SÃO GONÇALO DE AFETOS

Numa dessas lanchonetes em que você compra o lanche e ganha um brinquedo, uma jovem mãe lanchava com seu filho. O garoto de olhos ariscos olhava em todas as direções enquanto falava de sua expectativa do Brinquedo que ganharia. Seria um carro? Um avião? Um boneco de luta? Uma nave espacial? Até que o lanche chegou e o presente revelado era um boneco de luta. Ele muito feliz nem queria saber do lanche, entrando no seu mundo de imaginação lutando contra vilões intergalácticos e monstros ferozes que querem destruir a terra. Mas sua mãe insistia muito para que ele comesse e para isso vários argumentos foram utilizados:


_ Você tem que comer meu filho para ficar forte igual a seu pai, ter saúde, disposição e inteligência. Você não quer ficar magrelo igual tio Juca né? E nem burro igual ao Afonso, filho de Dona Mariazinha né?


O menino brincava feliz com seu boneco e nem parecia ouvir o que a mãe dizia. De repente ele olhou para a mãe com aqueles inquietos olhos inocentes e com aquela vozinha angelical perguntou:


_ Mãe, a senhora não disse que é feio falar da vida dos outros? Então, você está falando. Meu pai não é forte, é gordo e só vive dormindo no sofá, não é inteligente, pois nem o dever que eu trago da escola ele sabe ensinar. Tio Juca é magrelo, mas quando a gente vai à praia ele nada comigo, joga bola e rola na areia o tempo todo enquanto papai fica lá, sentado na cadeira bebendo cerveja. O Afonso pode ser burro, mas a poupança dele está cheinha de dinheiro, não gasta nada da mesada e no colégio senta na primeira fila e a professora elogia sempre o esforço dele para vencer as dificuldades no aprendizado.


Nesse momento ele dá uma pausa, olha as pessoas ao redor e volta à carga:


_ Ô mãe! Na televisão fala que todo mundo tem que usar máscara e lavar a mão com sabão e passar álcool em gel para não pegar a Covid e diz que o cigarro e os acidentes de carro matam mais do que qualquer doença no mundo. Então por que as pessoas estão sem máscara, e se misturando? Por que a vovó chupa cigarro o dia todo e por que quando a gente sai de carro o papai corre tanto e fica passando pertinho dos outros carros? Ele pode bater e a gente morrer. Todo mundo fica falando: Michelzinho não faz isso Michelzinho não faz aquilo e todo mundo faz o que diz pra eu não fazer e quando eu faço pirraça dizem que eu sou mal educado. A gente se estressa!


A mãe do menino olhava para mim ruborizada e sem saber o que responder e antes que ela pudesse dar qualquer resposta ao menino, ele se vira pra mim e manda sem dó:


_ Ficar escutando conversa dos outros também é feio. A tia da escola falou.


Disse isso me fuzilando com os olhos. Nem terminei meu lanche, peguei minha bandeja e saí de fininho. A mãe dele que se vire com as respostas. Essas crianças...

Paulinho Freitas é compositor, sambista e escritor.





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