Coisas da Pandemia VII: São Gonçalo de afetos, por Paulinho Freitas

SÃO GONÇALO DE AFETOS

Membros de uma igreja distribui quentinhas no Centro de São Gonçalo no início da pandemia/Foto: Reprodução Internet
Membros de uma igreja distribui quentinhas no Centro de São Gonçalo no início da pandemia/Foto: Reprodução Internet

Da minha infância lembro-me da Praia da Tamarineira no Gradim, aonde íamos eu, meu pai e meus irmãos pescar o almoço. Quase sempre não pegávamos muita coisa, mas sempre tinha um barco pesqueiro ancorado no cais e um bom pescador que nos dava alguns peixes frescos. Antes de chegar à praia, aonde hoje tem um CIEP existia um matadouro de bois e ali também eram doados os miúdos e o mocotó do boi. Hoje se vende até a alma do boi.


Naquele tempo doavam o que não era vendido. Pés, pescoços e miúdos de galinha tinham um preço irrisório quando não eram doados. Da Praia das Pedrinhas até a Praia do Barreto era uma fartura de peixes, camarões, caranguejos e siris. Quando tudo parecia estar perdido os armazéns do bairro sempre ajudavam abrindo aquele caderninho de crédito.


Os vizinhos estavam sempre de olho uns nos outros, havia muita fofoca, mas ao menor sinal de que alguém estava em dificuldade corria todo mundo para socorrer. O povo era unido e solidário. Tempo de amor ao próximo. Havia também pedintes, mas os doadores eram em maior número.


Este tempo passou, mas São Gonçalo parece ser indiferente ao tempo e as modificações de comportamento das pessoas. Todos os dias pela manhã vejo pessoas servindo café da manhã aos moradores de rua. Na hora do almoço nova fila se forma perto da igreja matriz e novamente param carros servindo almoço a quem nada tem.


No jantar acontece a mesma coisa e até ceia tem. Os doadores são criativos e agora até cabide solidário tem, colocam araras de roupa no meio da praça e quem tem necessidade pode pegar a peça que lhe convier.


Algumas pessoas chamam os moradores de rua de vagabundos e aproveitadores da boa vontade alheia. A situação está ruim para quem tem casa e emprego, imagina para quem só tem a rua para morar e o céu como cobertor?


Com a pandemia e a economia morro abaixo o número de moradores de rua aumentou. Ainda bem que os doadores ainda são em grande número e o afeto não se perdeu. Continuamos com a mania de fazer o bem. Que maravilhoso poder reconhecer isso!


Ah meu São Gonçalo! Protegei os filhos de sua terra!!!!!!

Paulinho Freitas é compositor, sambista e escritor.









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