De fila em fila o gonçalense padece, por Mário Lima Jr.


Foto: Divulgação
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Ser gonçalense significa superar a falta de muita coisa. Por exemplo, lazer, emprego, transporte, infraestrutura e respeito. Só não faltam filas. Enfrentar uma fila enorme, de horas de duração sob sol forte, no banco, na lotérica, na clínica ou na porta de uma agência dos Correios se tornou a maior manifestação pública da vida em São Gonçalo.


Enquanto os berlinenses são facilmente encontrados aproveitando um tempo ao ar livre, inclusive relaxando nus nos parques da cidade alemã, como este mês publicou a BBC, em São Gonçalo sequer temos parques. Algumas praças importantes da cidade, como a Praça do Rodo, nem árvores de sombra têm. Se a jovem, fã de Orochi, parar por alguns minutos na praça pra tomar uma casquinha, enquanto escuta o último lançamento do artista, o sorvete vai derreter após a primeira lambida e ela corre o risco de passar mal pelo calor.


Deitar nu no chão do Raul Veiga é algo impensável por causa da sujeira dos copos plásticos, da papelada e dos vazamentos de esgoto. Já as filas para atendimento na Caixa Econômica Federal do bairro estão sempre lotadas. A agência organiza uma fila, e o sofrimento do gonçalense, para o lado direito e outra fila, tão desesperadora quanto, para o lado esquerdo. Ambas dobram a esquina e se cruzam atrás do quarteirão.


A pandemia, que dura um ano, aumentou a necessidade de ir às agências para resolver questões bancárias, muitas envolvendo o auxílio emergencial. Mas as leis municipais e estaduais criadas para coibir o abuso dos bancos e correios em relação ao tempo de espera jamais foram cumpridas (Lei 4.223/03). O problema só piorou. O coronavírus levou à redução do número de atendentes em muitas empresas para proteção do pessoal, ato legítimo. Faltou criar uma boa estratégia pra evitar o aumento do tempo de espera e das aglomerações.


Quase nenhum dos motivos que tiram o gonçalense de casa proporciona prazer e a esmagadora maioria tem o mesmo destino: uma fila longa. Além de esperar pra pagar uma conta que vai vencer ou pra fazer um depósito em dinheiro, há filas nos consultórios médicos e nos laboratórios pra realizar ou buscar o resultado de exames. A fila que mais revolta o morador da cidade é aquela pra resgatar uma encomenda que não foi entregue pelos Correios sob a desculpa de que o endereço é área de risco. Afinal, o frete foi pago integralmente e não é devolvido. A empresa usa a mesma desculpa pra tentar disfarçar sua ineficiência operacional. Pessoas que precisam trabalhar para garantir o sustento dos filhos perdem horas e horas da vida porque não contam com um atendimento justo. Idosos não são poupados, pelo contrário, eles dependem do atendimento presencial por terem menos intimidade com a Internet. As filas preferenciais se tornaram tão grandes quanto as demais. Já quem tem grana conta com o privilégio de marcar horário com o gerente do banco. Rico sabe que fila é desperdício e faz perder dinheiro. Impor a humilhação das esperas intermináveis aos gonçalenses que têm poucos recursos é criminoso, vergonhoso e desumano.


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Esse texto apareceu primeiro em http://mariolimajr.com/ .

Mário Lima Jr. é escritor.




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