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Despreparados, por Mário Lima Jr.

Atualizado: 15 de Dez de 2019


Foto: Plantão Enfoco/Wallace Rosa

Despreparados”, gritou a população do Jardim Catarina várias vezes na porta do 7º Batalhão de Polícia anteontem. Ela quer que São Gonçalo e o mundo entendam algo repetido há tempos – e ainda sem solução – por cada comunidade fluminense pobre e refém do crime: a Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro não está preparada para cumprir sua missão. Ao invés de servir e proteger contra os bandidos, ela é conivente com a ação de facções criminosas, amedronta moradores e mata inocentes de todas as idades.


Na quinta-feira (5), durante uma ação policial violenta e desastrosa, Sandra Gomes Sales, de 61 anos, foi assassinada com um tiro na nuca no caminho para a escola do neto, no Jardim Catarina. Bairro que é considerado o maior loteamento da América Latina e que não pertence mais ao município de São Gonçalo desde que foi dominado por traficantes de drogas que infestaram as ruas da região com barricadas.

Ainda na quinta-feira, entre dor e lágrimas, uma onda de protestos começou com manifestantes ateando fogo em parte da pista da Rodovia Amaral Peixoto (RJ-104), na altura do Jardim Catarina. No dia seguinte, os dois sentidos da Rodovia Niterói-Manilha (BR-101) foram interditados, perto do quilômetro 304, e um grupo de manifestantes caminhou deste ponto até o 7º Batalhão de Polícia Militar, em Trindade, para exigir respeito por suas vidas. Operações policiais que podem resultar em confronto com bandidos armados no horário em que crianças estão saindo da escola provam a falta de planejamento e inteligência das operações policiais do 7º Batalhão, que no passado mostrou eficiência formando grupos de extorsão e extermínio.



Costumamos dizer que a vida continua após uma tragédia. Francisco Carlos Sales, marido de Sandra, disse que a vida dele acabou. Não faz sentido uma morte tão fácil de ser evitada de alguém querido. Para o neto de Sandra, que ficou aguardando a avó buscá-lo na escola sem saber que ela já estava morta, as lembranças de tristeza também vão transformá-lo para sempre, além de continuar vivendo sob o mesmo perigo que assassinou sua avó. No Jardim Catarina a vida não pode continuar porque o crime, com tantas origens, não deixa.


Por preconceito, mesmo mal enraizado na história da Polícia Militar, a classe média gonçalense não compreendeu até agora o que aconteceu. A revolta deles se limita aos engarrafamentos causados pelas manifestações, um dos poucos recursos de conscientização ao alcance das vítimas. Logo que fotos dos inúmeros protestos começaram a circular nas redes sociais, os manifestantes foram acusados de protestarem contra a morte de bandidos e comentários afirmavam que eles deveriam ser presos como cúmplices.

Mortes como a de Sandra são tão frequentes porque o lado preconceituoso e racista do povo do Rio de Janeiro permite que abordagens policiais estúpidas nas favelas continuem acontecendo. A preguiça e a ignorância favorecem reações negativas e impedem a busca por informação em prol de um Estado mais seguro e justo. A população do Jardim Catarina, por outro lado, escolheu um caminho diferente, o da luta.

Mário Lima Jr. é escritor.


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