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Escritores e leitores abraçam a livraria 'Ler é Arte' ameaçada de fechar as portas

Campanha "A Ler é Arte precisa de um respirador" começa a dar resultados e leitores procuram livraria em solidariedade


Por Rodrigo Melo

Os escritores Erick Bernardes e Mário Lima Jr. criaram a campanha/Foto: Divulgação

O município de São Gonçalo, tão carente, pode ficar ainda mais carente a partir de agosto.


A Ler é Arte, única livraria de rua da cidade, com grande oferta de obras de autores gonçalenses, pode cerrar as portas, até o fim deste mês, caso não se restabeleça dos efeitos da quarentena imposta pela pandemia da Covid-19, que a inviabilizou financeiramente após ficar três meses fechada e sem faturamento durante o período.


A proprietária da Ler é Arte, Virgínia Siqueira, 60, deu a triste e melancólica notícia a amigos, clientes de longa data e escritores nesta segunda (29/6), colocando à disposição o seu acervo e catálogo para liquidação a preços módicos ou simbólicos, além de anunciar a devolução dos livros consignados para os autores.


A entrega da loja, que é alugada, já está acertada com o senhorio para 30 de julho, se, e somente se, a situação não for revertida.


- Já estava difícil antes da pandemia, com vendas bastante fracas. O meu forte são encomendas e venda presencial para clientes, que na verdade são amigos. Eles que me ajudam a sobreviver. Porque concorrer com gigantes da internet, como a Amazon, e com grandes livrarias, é impossível - disse Virgínia.


Amigos, clientes e escritores correram à Ler é Arte nesta terça (30) para tomarem ciência da situação, adquirir os títulos à venda e, claro, dar um afago em Virgínia, que confirmou, à contragosto, o que era obrigada a fazer com a livraria, fundada em 2005.


Mas, onde há vida, há esperança. Os escritores e colunistas do Jornal Daki, Erick Bernardes e Mário Lima Jr., solidários à Virgínia e inconformados com o fechamento da Ler é Arte, mobilizaram, in loco, da própria livraria, outros escritores, amigos e imprensa via WhatsApp, e criaram a campanha "A Ler é Arte precisa de um respirador".


Deu certo. Ontem mesmo o jornal O São Gonçalo, em matéria assinada pelo jornalista Rennan Rebello, deu visibilidade ao assunto e à campanha. A árvore solidária logo cresceu e deu frutos. E hoje pela manhã, a página da Ler é Arte no Instagram exibia os primeiros clientes com seus respectivos títulos adquiridos, com a hastag #compreinalereartelivraria.

- Eu estou triste com o fechamento da livraria, mas bem alegre pela importância que a livraria, nestes 15 anos, teve pra muita gente. Muita gente mesmo. O pessoal mandando mensagem, triste com a notícia. Pessoas que já compraram há alguns anos e voltando aqui (na livraria) pra dar uma força. Isso é muito bom e gratificante. É impressionante o carinho que tô recebendo - revela, emocionada, Virgínia.


Nos 15 anos de funcionamento da Ler é Arte - completos em maio, no meio da pandemia - foram milhares de leitores formados e espaço garantido para obras de mais de 50 autores gonçalenses nas prateleiras da loja na Galeria da Matriz, em frente à Igreja Matriz de São Gonçalo.


Entre os autores que marcam presença com suas obras na Ler é Arte, além de Erick Bernardes e Mário Lima Jr., estão os prosistas e poetas tavernistas Rodrigo Santos e Romulo Narducci, Decio Machado, os historiadores Rui Aniceto Fernandes e Maria Nelma Carvalho, Paulo Brasil, Mendonça Venâncio, Nilda Ferreira, o ilustrador e pedagogo Juareis Mendes, falecido no último domingo (28/6), André Luis Siqueira dentre tantos outros.


Também na livraria, o leitor encontra a coleção Cadernos do Leste, uma série de títulos da editora Apologia Brasil organizados pelo jornalista Helcio Albano.


O escritor Rodrigo Santos, considerado um dos maiores ficcionistas brasileiros, autor do celebrado Macumba, lamenta o fechamento da Ler é Arte, o que considera 'mais uma lápide nesse nosso cemitério de sonhos':


- Buenos Aires tem quase três vezes mais habitantes que São Gonçalo, e 367 vezes mais livrarias. E esse número está prestes a dobrar. Buenos Aires tem 734, nós temos duas - e uma delas, a única que vende autores gonçalenses, pode fechar a qualquer momento. A Ler e Arte é a livraria mais antiga da cidade, e seu fechamento seria mais uma lápide nesse nosso cemitério de sonhos. Ai de ti, São Gonçalo.

Ai de quem não atender esse chamado...






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