Estupros no Degase repetem horror brasileiro, por Mário Lima Jr.


Foto: Reprodução
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O primeiro sinal de que o Brasil encontrou o caminho da dignidade social virá das prisões do país, nosso maior inferno. Quando houver respeito pela pessoa humana nos presídios, unidades socioeducativas e delegacias, poderemos dizer que aprendemos alguma coisa que levará ao desenvolvimento econômico pleno, com distribuição de renda. Por enquanto, o Brasil é um país onde meninas de 13 anos são estupradas dentro de salas de leitura por agentes do Estado que deveriam contribuir para sua formação como cidadãs. Segurando as vítimas embaixo das câmeras, para que a monstruosidade não seja filmada. E para garantir o silêncio delas, os criminosos oferecem balas, chocolates e o direito de fazer uma ligação para matar a saudade da mãe.



De acordo com uma ex-funcionária, estupros de adolescentes ocorrem há anos no Centro de Socioeducação Professor Antônio Carlos Gomes da Costa, na Ilha do Governador, única unidade feminina do Departamento Geral de Ações Socioeducativas (Degase) do Rio de Janeiro. Uma delas teve um aborto e outra está grávida, conforme processo na Justiça do Rio (G1). A cada hora, quatro meninas menores de 13 anos são estupradas no Brasil, de acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (El País). Estupros de crianças também acontecem nas embarcações que cortam os rios da Região Norte em troca de um pacote de biscoito. Se meninas passam fome no Brasil e ela é usada como arma para o estupro, o país inteiro é violentado e no fundo sente que há algo errado, ainda que não perceba a dor da barriga vazia ou da penetração.


Não é por causa da corrupção que vivemos em um país afundado na merda (afinal, metade da população brasileira não conta com coleta de esgoto). Somos uma vergonha mundial porque a vida do pobre não recebe nenhum respeito, criança ou adulto, preso ou em liberdade. A notícia de adolescentes violentadas em unidades socioeducativas não despertou nenhum interesse nas redes sociais, onde estão conectados 99% dos celulares brasileiros. Não podemos proteger uma adolescente que cometeu infração e humilhar e matar criminosos adultos dentro dos presídios. O ódio não escolhe idade, embora escolha a cor da pele. Também não conseguiremos formar com qualidade profissionais e gerar empregos se instituições que deveriam educar e socializar promovem o estupro. O povo amontoado nos presídios ou estuprado no Degase é o mesmo que precisa encontrar seu caminho e se desenvolver.



Não basta afastar e processar os envolvidos. O desprezo pela vida humana espalhado no território brasileiro aguarda soluções de alcance nacional construídas pela pressão popular. As meninas do Degase sequer contam com apoio feminino, no momento não há mulheres cuidando da sua rotina, apenas homens. O Brasil a ser defendido é um moleque negro e favelado assassinado dentro de casa pela própria polícia, uma menina manauara violentada sistematicamente pelos parentes. O país de arma na cintura, vestindo a camisa da seleção brasileira de futebol, comendo churrasco e tomando cerveja na fazenda não precisa de ajuda nenhuma.


Este texto apareceu antes em mariolimajr.com.


Mário Lima Jr. é escritor.



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