Excentricidades do rico gonçalense, por Mário Lima Jr.


Foto: Matheus Graciano
Foto: Matheus Graciano

A renda média do trabalhador gonçalense é de dois salários mínimos (IBGE). Não há um bairro sequer onde o jovem mais pobre da cidade se sinta excluído. Falta renda, limpeza, infraestrutura e serviços na cidade toda, por isso as manias dos gonçalenses um pouco acima da classe média são ainda mais incomuns. Para encontrá-las, é preciso visitar os locais preferidos dos grandes empresários municipais e das autoridades parlamentares e executivas.


O rico gonçalense passeia com seu cachorro peludo carregando três acessórios: saquinho plástico, desinfetante e lenço umedecido. Depois do cocô, os acessórios são usados nessa mesma ordem. Tem cachorro de rua, magro e doente, cagando agora na porta da Prefeitura, bem no Centro da cidade. O cocô fica lá por dias. Saber que tem cachorro privilegiado com alguém que recolhe suas fezes e limpa seu bumbum foi um choque.


O rico tem chopeira na varanda. Não é geladeira com cerveja da Ambev, mas chopeira com torneiras abastecidas em casa todo mês por fabricante de cerveja artesanal. Ele tem facilidade para consumir, pois recebe as melhores ofertas. Prestadores de serviços e vendedores correm para onde o dinheiro está. O rico conta com hambúrguer artesanal, copo da felicidade e pizza gourmet na porta de casa, enquanto o gonçalense comum torce para que o motoboy não desista de entregar seu x-tudo depois de ouvir tiros na comunidade.


O rico tem treinador pessoal, estilista e nutricionista. Joga futebol com uniforme completo, com seu nome escrito nas costas, em campo exclusivo. Na maioria dos bairros, crianças descalças disputam espaço com carros, motos e barricadas pra se divertir. De forma segura, o rico se exercita regularmente. Se estiver chovendo, corre para a academia. E ainda resolve seus problemas pela Internet, já a rotina do pobre é bem menos eficiente. Ninguém tem tempo, e disposição, para se exercitar depois de passar o dia inteiro entre as filas da Lotérica, dos Correios, do banco e da clínica.


O rico gonçalense agenda corte de cabelo e no final do serviço ganha uma cerveja premium, já incluída no preço, em torno de 30 reais. O pobre vai na casa do amigo que tem máquina e pede pra ele cortar. O rico que levou a cerveja para casa recebe pedidos constantes de gorjeta e nega todos porque já está cansado desses pedidos. O pobre que economiza no corte de cabelo oferece gorjeta aos entregadores e os surpreende.


Os filhos do rico têm babá e segurança particular à disposição. O pobre, principalmente se for negro, sem ter feito nada toma tapa na cara do mesmo policial que cuida da segurança do rico nos dias de folga. O rico gonçalense não é pior nem melhor do que o de outros lugares. Ele também se esquece que ao redor dele uma cidade inteira depende de ajuda, para o bem de todos.


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Mário Lima Jr. é escritor.



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