Exercício para que nenhuma vítima seja esquecida, por Mário Lima Jr.


Reprodução Internet
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Trezentos e dez mil quinhentos e cinquenta brasileiros ouviram falar pela primeira vez sobre a Covid-19 no noticiário, dizendo que a doença tinha começado na China. Logo depois se tornou inevitável desviar do assunto nas conversas em família e com amigos de trabalho. A minoria que pôde buscar o máximo de isolamento, trabalhando de casa e saindo só para o essencial, como comprar comida, também discutiu sobre o coronavírus causador da doença nas redes sociais. Desde o início dos sintomas todos desejaram viver, inclusive quem não sentiu tanto medo. Preferir a morte não é natural nem humano. Quando ela acontece sobre a cama de um hospital, fisicamente dolorosa para o paciente e para sua família, se torna sobretudo uma trágica decepção. Fracassa o plano de sobrevivência, iniciado há até um ano atrás, quando começamos a adotar medidas contra a pandemia, como o uso de máscaras. Falha o Brasil como país que deveria proteger seus cidadãos, onde o número de vítimas diárias é maior do que em qualquer outro lugar do mundo. Sonhos são interrompidos e dão lugar à saudade. Parte da dignidade de cada brasileiro vivo também morre.


O sentimento inicial foi de dúvida sobre como a Covid-19 chegaria ao Brasil, mortal e abrangente ou branda e insignificante, uma “gripezinha”. Não houve restrições duradouras de circulação, por isso muitos não tiveram certeza sobre como se contaminaram. Apresentando sintomas que podem variar, a preocupação começou e com ela a necessidade de um isolamento maior a fim de não contagiar outras pessoas.


Buscar um hospital para realizar o exame de Covid inaugurou uma série de momentos de tensão. A esperança é de que a doença seja qualquer outra, pneumonia, gripe, quem sabe crise forte de ansiedade. A espera pelo resultado pareceu interminável, a rede pública leva dias para divulgar. A família permaneceu apreensiva até que o resultado positivo veio. Nesse instante, os incrédulos mudam de opinião. A Covid-19 enfim se torna algo real, palpável, inclusive se o resultado foi recebido por email. Os moradores da mesma casa se perguntam se não foram contaminados, bem como as pessoas que tiveram contato com o portador do vírus. O nervosismo é ainda mais contagioso.


A esperança jamais abandonou totalmente os mais próximos, mesmo com a piora dos sintomas, que intensificou as preces. Vizinhos que nunca disseram “bom-dia” enviaram mensagens contando que estão torcendo pela recuperação do doente. A internação fez com que parentes e amigos desejassem força e pedissem por orações nas redes sociais. Há vítimas que acompanham essas publicações sobre elas pelo celular, antes da inconsciência e intubação.


A falta de ar é um relato comum. Entre familiares, desespero, perda, impotência e angústia absoluta desde que a pessoa internada se tornou incapaz de se comunicar. Os boletins médicos geralmente são enigmáticos e inconclusivos, visto que o único desejo é saber quando a recuperação e a alta virão. Para o número criminoso de vítimas da Covid-19 no Brasil, infelizmente não houve recuperação. Muitas sequer contaram com tratamento adequado e morreram em salinhas improvisadas nos hospitais, esperando um leito de UTI.

Mário Lima Jr. é escritor.






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