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Graças a Deus! Por Paulinho Freitas

SÃO GONÇALO DE AFETOS

Ele, Rheinaldo Baso

Eu sou chorão! Choro quando escrevo uma crônica bonita, que transmite sentimento, que tem amor, que tem fé. Choro mesmo! Choro quando vou à rua e vejo aquele bando de adolescentes andando depressa e falando todos ao mesmo tempo, não sei como se entendem, um dia eu fui assim também, eu acho.


Eles riem do nada e por nada. Ao mesmo tempo em que discutem entre si saem em desabalada carreira às gargalhadas e se abraçando. Vá entender essa mistura de sentimentos dos adolescentes. Parece uma TPM unissex.


Não podia a vida ser sempre assim?


Por que temos que crescer, tomarmos para nós a responsabilidade da vida, conta de luz, gás, telefone, colégio de filho, conserto do carro...? Chegaaaaaaa!! Aí é que eu choro mesmo!


Quando eu passo pelas igrejas e vejo aquele povo todo amontoado, espremido na porta sem conseguir entrar e louvando, gritando, pedindo a Deus clemência para esse mundo decadente, cheio de amargura e preconceito! Caramba! É muito emocionante!


Ouvir um samba raiz falando da infância, da família, do subúrbio, da favela, do morro, da utopia de viver feliz com quase nada dá vontade de chorar mesmo né não? Dá sim!


A simplicidade de quem deseja “bom dia” pra quem nem se conhece; a lembrança do antigamente, de ficar sentado lá em cima do morro de madrugada vendo a cidade amanhecer sem pensar em nada, só olhando para o céu, vendo as estrelas se escondendo na claridade do dia, do espreguiçar dos passarinhos e o esquentar de suas pequenas gargantas antes do primeiro cantar anunciando o novo dia.


Às vezes choro até a toa. Só porque não tem nada pra ficar triste e não tem nada pra ficar alegre. Existir já é felicidade demais!


Esta noite eu estava trabalhando, à noite e à medida que as horas avançavam a cidade adormecia; cada vez menos carros passavam na rua, o som de pessoas falando ao passar pela rua foi diminuindo, a música num volume quase insuportável de um vizinho mais alegre já quase não se ouvia, comecei a ouvir o som do silêncio, a chuva fina que caia tocava no chão como um carinho de gato se esfregando no capim, por debaixo do portão principal um grilo, passou rápido se escondendo por entre as folhagens do jardim, um pequeno sapo veio atrás, parou por um momento como se estivesse procurando alguma coisa e seguiu para o lado oposto ao do grilo, foi por pouco.


Uma pequena coruja pousou no chão logo após o sapo ter entrado por baixo de um amontoado de pedras ali existente e rapidamente voou ao perceber que um gato a observava em posição de ataque em baixo de um carro na garagem.


Passei a noite observando o que poucos seres humanos tiveram a dádiva de testemunhar. Aquela paz foi me remetendo a coisas boas, músicas lindas, de repente imagino Reinaldo Baso declamando um poema de Augusto Dias.


Lentamente a claridade foi tomando todos os espaços de um novo dia. Amanheci chorando. Graças a Deus!

Paulinho Freitas é cantor, compositor, sambista e escritor.




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