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Grades, por Fábio Rodrigo


Ilustração de "Domingo Sangrento", Rússia/1905. Getty Images

Ele pertence a uma família abastada. E estava tomando sol na varanda. Sua condição social permite tomar sol na varanda. Além de ter tudo o que precisa, ele ainda esbanja o que tem. Mostra a quem quer que seja a fartura que o cerca. Parece convidar a quem não tem a se aproximar dele. Faz questão de olhar para os desprovidos da sorte e dizer-lhes em pensamento: “Quão desalentados são”. Olha com desdém quando um desafortunado se aproxima. Próximo da grade que o separa dos desassistidos, ele vê seus restos serem consumidos por quem não tem o mesmo status que ele.


Eles, os desafortunados, não fazem cerimônia e se aproveitam das sobras espalhadas ao chão. Sabem que vieram ao mundo para colherem migalhas deixadas pelos aquinhoados da sociedade. Não se constrangem em apanhar as sobras. Sua natureza os fez se acostumarem a ser assim. Vivem dos restos deixados ao chão. Comem o que foi desprezado pelos privilegiados, pelos que têm lar, pelos que têm cuidados sanitários, pelos que têm alimentação rica em proteínas e sais minerais.


Eles chegam em bandos. Sua força é traduzida em números. Se soubessem o quão fortes são, seriam capazes de romper com as grades que os separam dos privilegiados. Todos os dias, enquanto o pássaro exótico toma seu banho de sol, os pássaros relegados à própria sorte se acercam para marcar o território de subalternidade. Comem as sementes como se não houvesse outra chance. Não são apadrinhados como os pássaros exóticos que vivem em gaiolas. São responsáveis por seu próprio destino. São livres para escolher qual sobra comer. Isso é ser livre?


O fato de pertencerem ao mundo dos desassistidos faz deles preocuparem-se com seus companheiros de luta. Em nenhum momento roubam o alimento do outro. São solidários à fome alheia. Estão juntos pelo mesmo ideal de vida: a luta pela sobrevivência.

Fábio Rodrigo Gomes da Costa é professor e mestre em Estudos Linguísticos.




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