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Heraldo Faria: Baluarte em três agremiações carnavalescas, por Oswaldo Mendes


Heraldo Faria/Foto Arquivo

Há algum tempo venho tentando conversar com o Heraldo, mas numa época de violência pura, muitas vezes ligar para uma pessoa pedindo informações sobre sua vida pode ser mal interpretado, sem contar com afazeres diversos, mesmo neste tempo de pandemia, onde tudo quebra dentro de casa para nos aborrecer entre uma cerveja e outra. É uma reação natural para todos.


Um dos maiores vencedores do carnaval do Rio de Janeiro, com diversas composições gravadas, campeão com sambas antológicos – completamente diferenciados dos atuais pasteurizados, assumiu diversas atividades no Mundo do Samba.


Se você nunca ouviu falar em Heraldo Faria, sugiro que leia esta e outras matérias sobre o mesmo. Claro que não se consegue resumir, dando detalhes, de uma vida em prol da Cultura em algumas laudas, mas este nome deve ser lembrado, reverenciado, sim. Temos a honra de escrever sobre Heraldo Faria.


Heraldo Gomes de Faria, nascido em Mimoso do Sul, Espírito Santo. Capixaba, mas quando fez um ano de idade se mudou para Niterói e veio morar e se criou no Morro do Estado. A mãe gostava de música, cantava em igrejas, mas a influencia maior adveio do padrinho - João Veríssimo – que era seresteiro e tocava cavaquinho e Heraldo o acompanhava sempre.

Outra grande influência veio através de uma escola de samba denominada Império do Estado que mais tarde mudou o nome para Império de Niterói. Quando foi fundada a escola de samba ao Heraldo foi perguntado qual seria as cores da mesma. Parecia premunição de quem perguntava para quem se tornaria na vida um grande artista. Nela, na Império de Niterói, ensaiavam no morro e, pela mesma, Heraldo desfilou pela primeira vez.


Explica Heraldo que, nessa época, existia samba duro, samba de roda, onde o melhor sambista era o que hoje se denomina Mestre Sala – o qual misturava-se inclusive passos de capoeira numa intenção de defender a Porta bandeira da agremiação. Os outros sambistas com menor habilidade eram deslocados para Alas de Passistas e Alas show - atualmente desaparecidas, onde, alguns ótimos sambistas, vinham com mulatas se apresentando na avenida, mas hoje considerado, pelos atuais responsáveis, que atrapalha a evolução da escola.


Foi jogador de futebol, chegando até a se tornar profissional. Foi também Treinador de diversos times de futebol masculino, tais como: Juvenil do São Cristovão Crol, Manufatura e Friburgo. Lembra com tristeza de um fato, mas já superado, que viu e considerou como preconceito de cor, acontecido em certo clube de Niterói em que ele servia para atuar como atleta, mas não como sócio.


Saiu do Clube de Niterói e foi jogar futebol no São Cristóvão. Depois foi para a Portuguesa do Rio de Janeiro, da Portuguesa transferiu-se para o Fluminense de Feira de Santana e depois para o Grêmio Portoalegrense e outros times.


Sempre gostou de cantar e assim começou a fazer versos. Viajou para a cidade de Campos e lá começou a fazer umas músicas em “shoot” – moda à época, falando da cidade de Campos, daí foi para festiva, fazendo inclusive rock.


Já como treinador de futebol em Friburgo conhece, em Cachoeiras de Macacu, a que tornou sua esposa. Nessa época também gostava de participar de festivais de músicas de várias cidades do estado do Rio – Conceição de Macabu, Araruama, cachoeiras de Macacu e outras. Através do jornal Diário de Notícias, que patrocinava alguns festivais no Estado do Rio, Heraldo passou a fazer parte desse grupo, assim viajando por todo o Estado para tal, com várias equipes de compositores.


Lembra de seu compadre Marinho da Muda e seu sucesso “A nega é minha, ninguém tasca. Eu vi primeiro”, em 1972, e também nesse ano na cidade de Cachoeiras de Macacu tinha duas escolas de samba: Ganguri e Espere por Nós.


Por ter as cores do GRES Mangueira ele escolheu a Ganguri e assim fez um samba de quadra para a agremiação. O sucesso foi tanto que o samba de quadra virou o samba que a agremiação desfilou como samba enredo naquele ano. Ano seguinte fez o samba enredo da agremiação, onde convidou diversos amigos para cantar em Cachoeiras, dentre eles o Hugo Camburão e Edson Mendes – conhecido como Edinho, que fazia parte do GRES Viradouro – que fazia carnaval em Niterói.


Edinho vendo as músicas em letras do Heraldo lhe faz o convite para que ele fosse para a Viradouro e assim marcou no centro de Niterói, lugar conhecido à época como ‘Esquina do Pecado”, esquinas da Coronel Gomes Machado com a Rua Visconde de Uruguai – antigo e tradicional ponto de encontro de compositores de Niterói, mas o Edinho não compareceu.

Ney Viana, Presidente do GRES Cubango, vendo o Heraldo ali perguntou o motivo e lhe foi explicado o motivo. Ney conhecia o Heraldo do futebol. Interpelado, Heraldo também cantou e apresentou algumas de suas letras e músicas e assim veio outro convite para ir à uma reunião de compositores da Viradouro, mesmo ele sendo Presidente da Cubango. Dali começou a participar da reunião da Cubango, a maior concorrente da Viradouro à época e assim aconteceu.


No primeiro ano na Cubango teve muita dificuldade para conseguir parceiro, até pelo motivo de ser “da roça”. O tema era a madrugada. Pegou a sinopse. Foi para a Praia de Icaraí e nada. Naquela época os compositores andavam com gravadores na bolsa para quando tivessem uma boa melodia ou letra – inspiração – imediatamente gravassem. Os gravadores eram de fitas de tamanho que atualmente parece com uma caixa de leite ou bombom.


A inspiração para fazer a canção veio da namorada quando desciam de Friburgo para Cachoeiras de Macacu, isto na serra, e veio a frase dela: “Que noite linda. Parece que a madrugada integra a natureza” e dali nasceu o seu primeiro samba para concorrer na Cubango.


“Faz parte da natureza

O esplendor da madrugada

O Cubango com a sua graça e beleza

Faz dela sua eterna namorada”


Leia a matéria em https://url.gratis/Vdbj7 no blog "Cubango é Raiz".


Fez o samba sozinho, sem parceiros e também ele cantava. Na final o presidente perguntou quem iria defender seu samba e ele respondeu que seria o próprio. O Ney coçou a cabeça, pois até o Heraldo sabia que cantava mal. Com o pessoal de Cachoeiras de Macacu aguardando o Flavinho Machado, que já era o intérprete oficial da GRES Cubango, veio e perguntou se o Heraldo confiaria nele para defender o samba, mesmo sabendo que o Flavinho também estava nesta final e a resposta foi sim. Flavinho defendeu o samba e Heraldo foi o campeão. Ali nasce a amizade entre Flavinho e Heraldo, mas não a parceria.


Ano seguinte, já como secretário da Ala de Compositores da Cubango e o presidente da Ala era Clebinho, Flavinho Machado era diretor de divulgação e Tapê era Tesoureiro.


O compositor João Belém não quis participar da parceria com Heraldo pois na escola diriam que o Heraldo fez o samba pra ele, assim inviabiliza a parceria. João Belém, compositor do GRES Cubango. Porém, ao mesmo tempo contra o Belém, corria um processo interno na ala para que ele não colocasse mais samba em função de atrasos e faltas, mas na hora da votação todos os diretores da ala mudaram o voto e o Heraldo não quis mais votar, até mesmo por já ter decidido. Os outros diretores pediram o voto do Heraldo e ele apresentou e disse o que aconteceu antes e o motivo que assim votava, mas ao mesmo tempo chamou o João Belém para a sua parceria.


Daí nasceu a obra magnífica, antológica do Heraldo na voz de Flavinho Machado que foi campeão duas vezes, em 1979 e em 2009, já na Marques de Sapucaí.


No terceiro ano fecha a parceria Heraldo e Flavinho Machado, através de solicitação(reclamação) do Heraldo à esposa do Flavinho, pois o Flavinho temia que dissessem que o Heraldo que fazia os sambas. Foi superado e assim nasceu uma das parcerias mais vitoriosas da história do samba.


Mundo Mágico e Fruto do Amor Proibido foram suas vitorias seguintes na Cubango. E foram convidados para irem para a Ala de Compositores do GRES Mangueira, onde tinha nomes como Cartola, Carlos Cachaça, Jurandir, Hélio Turco e Nelson Cavaquinho, Nelson Sargento e outros. Nesse ponto, Heraldo compara, com os nossos dias, a decadência com os “Escritórios do Samba” e as antigas alas de compositores das agremiações em geral.


Na Mangueira, logo que chegaram, ganharam o primeiro e segundo samba e também o concurso de Samba de Quadra – Samba de Terreiro. Além desses ganharam vários concursos, propostos por empresas, inclusive o extinto BANERJ, fizeram também diversas músicas e jingle para propagandas oficiais e outros.

Monassa assume o GRES Viradouro e pede para que Heraldo o ajude na escola de samba de Niterói.


Monassa foi o presidente de Honra da Viradouro, isto nos idos dos anos 80, mas o Heraldo já o conhecia desde jovem, do Clube de Regatas Icaraí, quando ele lá praticava canoagem. Também mantinha grande amizade com o irmão de Monassa, Luiz Henrique, apelidado de Verdugo - que era na televisão um lutador de box que foi sucesso nessa época. Luiz Henrique também foi jogador de basquete e corriam, juntamente com Monassa, na Praia de Icaraí, isto bem antes de ser relacionado para ir para o quartel, onde Heraldo Farias serviu o extinto # Regimento de Infantaria, no Venda da Cruz, em São Gonçalo.


Continuou a parceria Flavinho e Heraldo na trajetória de campeões. O samba do título de 1997 é deles, sendo o último samba ganho na Viradouro em 2009. Com diversas obras gravadas na MPB. Esse é o Heraldo Faria.

Em 2002 foi diretor geral de carnaval da Viradouro, assim como já foi no mesmo cargo da Cubango, onde se orgulha em dizer que, juntamente com a Comunidade e demais integrantes, conseguiram trazer a agremiação para o último – da Intendente Guimarães, do quinto grupo para Grupo de Acesso do Carnaval do Rio.


Com sambas em diversas cidades do Brasil, como Caxambu, Belo Horizonte na Escola de Samba denominada Cidade Jardim, em São Paulo, em Lagunas, Santa Catarina com Dominguinhos e diversos outros.


Explica que, naquela época, o compositor só fazia samba para uma única escola de samba. Fez parcerias com Marinho da Muda, com Maestro Tranca. Foi produzido um disco com Rido Hora e gravou com Elza Soares – que regravou inclusive a música Afoxé. Lembra o grande saudoso amigo Roberto Ribeiro, também de Haroldo Santos, AGP e outros.


Finaliza a conversa informando o orgulho de fazer samba raiz e conhecer e participar desse mundo maravilhoso do Samba.


Há diversos sites e vídeos sobre as obras de Heraldo, as quais podem ser buscadas e pesquisadas pela internet. Referência da nossa cultura. Referência do samba.

Heraldo Faria - a simplicidade de um verdadeiro Baluarte em três Escolas de Samba. Que se rendam as homenagens!

Oswaldo Mendes é engenheiro.





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