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Humilhações que entraram no cotidiano gonçalense, por Mário Lima Jr.


Em tempos de alterações drásticas na nossa rotina por causa da pandemia de coronavírus, mudanças anteriores, causadas pelo domínio do tráfico de drogas sobre diversas regiões de São Gonçalo, foram absorvidas há tempos pelo cotidiano popular e são tratadas pelas autoridades como algo consumado e irreversível.


Apesar das recomendações de isolamento domiciliar, milhares de gonçalenses precisam sair todas as manhãs para trabalhar. Muitos usam o próprio veículo como meio de transporte ou como ferramenta, no caso dos motoristas por aplicativo. No retorno para casa à noite, cansado da jornada de trabalho, o motorista é obrigado a apertar o botão do alerta, baixar o farol e ligar a luz interna do veículo quando se aproxima da região onde mora, às vezes há décadas. Caso se esqueça desse procedimento, corre o risco de um bandido surgir de repente na escuridão e apontar uma arma pra sua cabeça e quem mais estiver dentro do carro, família, mulheres e crianças.


Nas localidades em que existem barricadas móveis, feitas com uma geladeira velha, um sofá ou barras de ferro, a humilhação continua. Na rua de casa, o motorista para o veículo (mantendo o alerta ligado), desce do carro, caminha até a barricada, remove a barra de ferro do meio e a coloca gentilmente de lado, no chão. Caminha de volta para o veículo, avança com ele alguns metros, para, desce do carro de novo, caminha até a barra de ferro no chão, pega a barra, coloca no lugar, volta para o veículo e só então pode dirigir até o portão de casa. Se demorar muito para cumprir esses passos, deixando o trânsito livre, recebe reclamação do dono do morro. Tem sempre alguém vigiando.


O homem ou mulher que arrasta a geladeira para um lado e para o outro todos os dias, na ida e na volta do trabalho, sabe que não merece essa humilhação. O gari, que remove e recoloca a barra de ferro para que o caminhão de lixo entre e saia da rua, também sabe que já sofre humilhações demais. Muitos nem luvas usam para trabalhar. O cidadão que remove e recoloca a barra de ferro para receber mesas e cadeiras que alugou para o aniversário do filho também sabe que tem o direito constitucional de ser protegido.


Os adolescentes flanelinhas que trabalham no estacionamento ao lado da Favela da Central, vigiando os carros da Oi, empresa que funciona em frente ao estacionamento, sabem que não merecem a humilhação de passar o dia no sol, sem estudar e sem perspectivas de futuro, catando no chão as moedas jogadas pelos técnicos de instalação da Oi. Não há ação para salvá-los.


Cada chacina é uma humilhação generalizada porque prova que ninguém, principalmente o Estado, respeita o gonçalense. As crianças não merecem o nível de violência que a cidade atingiu e que policiais e bandidos de arma em punho cruzem o seu caminho enquanto brincam, atirando em tudo o que se move.


O pequeno comerciante, endividado, não merece a humilhação de ter que pagar propina para o tráfico e para a fiscalização a fim de manter seu negócio funcionando. A mulher não merece ter que colocar dinheiro no sutiã pra não ser assaltada no caminho até o mercado. Ou ser assediada no ônibus por homens que pensam que têm algum direito sobre seu corpos. São Gonçalo está entre as cidades com mais casos de violência contra a mulher no Rio de Janeiro.

Helicópteros voando baixo no início da manhã, assustando, ao invés de interromper o fluxo de armas e drogas, ao invés de promover desenvolvimento social, é humilhação do povo. Pisoteamento. Resultado de discurso genocida e de ausência de estratégia para a segurança pública.

Mário Lima Jr. é escritor.



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