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Jaqueline Nery: A força da Mulher e sua forma de “crear” e renascer, por Oswaldo Mendes


Jaqueline Nery/Foto: Acervo Pessoal

Era 2017. Fomos confiantes para o desfile da Viradouro. Tínhamos preso um grito no peito, uma vontade imensa de verdadeiramente mostrar quem éramos. O Chão da Escola estava empolgado e focado num bom desfile, imaginando ouvir as pessoas do Setor 1 – o Setor mágico. A Ala dos Compositores historicamente vem como última ala e o carro que estava a nossa frente não era o retrato somente da agremiação naquele momento, mas de muitas pessoas. Um símbolo dentro de tantos outros mais, porém com uma mensagem fortíssima. Era o quinto carro e não era apenas um simples pássaro com a bandeira em seu bico. Era muito mais.


Muitos dos que estavam a percorrer aqueles pouco mais de setecentos metros, nas arquibancadas, assistindo de cima dos viadutos ou até mesmo trabalhando ao ver a Fênix tinham a sensação de que aquela homenagem também era pra eles. Um conjunto harmonioso de energia focalizado numa só direção. Renascer das cinzas, conforme a Mitologia Grega, que também foi descrita por Monteiro Lobato no livro “Os Doze Trabalhos de Hércules”.


Vivemos em e pelas Mitologias.


“Crear” é a manifestação da essência na Existência e esse dom, inato às Mulheres, é a licença poética que talvez nos seja dado nesse momento.


O filho de Jack Nery, Wellingthon Gonçalves Espíndola, a incentivou a largar a profissão anterior de Administradora, pois já estava adoecida. Incentivou a pedir demissão da Associação dos Pais de Amigos dos Excepcionais – APAE de Niterói e tentar uma nova profissão naquilo que realmente goste. E ele estava fazendo pré-vestibular. Assim o fez. Também teve a ajuda de duas amigas: Suzane Sá e Gilza Freire.


Atualmente tem as netas como suas incentivadoras, deixar um legado e criação. Duda e Maria Eduarda que inclusive já desfilaram no Balanço do Fonseca e a Yasmin que já desenha, já faz seus traços.


Seu pai, José de Moura Gonçalves, era amigo do saudoso ex-presidente da Viradouro nos idos de 1970, amigos de um visitar a residência do outro; apesar de sempre o pai a levar para brincar carnaval de rua, nunca quando criança foi ao Viradouro.


Jaqueline começou a trabalhar muito nova. Aos 10 anos desenhava e seu tio já aproveitava seus desenhos. Ele tinha uma gráfica onde fazia logo para empresas e era a Jack que criava alguns desenhos. Depois aprendeu a fazer arte final em nanquim, aprendeu com ele Serigrafia e aos 14 anos ele assinou sua carteira como Impressora Serigráfica. Sempre em contato com desenho. Sempre autodidata, porém oportunidades para estudar arte formalmente não apareciam.


Casou-se e trabalhou em uma empresa com desenvolvimento de projetos artísticos e depois teve seu primeiro filho, Wellington Gonçalves Espíndola. Começou a trabalhar por conta própria com Serigrafia, fazendo calendários, cartões de visitas e criações de logos até o nascimento de sua filha, Chrystiane Gonçalves Espíndola, que nasceu com sindrome de down e a partir daí a sua vida teve uma mudança radical. Com 22 dias de nascida deu inicio ao tratamento dela na APAE/ Niterói. Em face da dificuldade financeira da instituição, juntou-se aos outros pais e começou seu trabalho para dar uma qualidade de vida melhor para sua filha e dos demais pais que dali necessitavam. Foi alçada diretora voluntária e Administradora da APAE/Niterói, por 14 anos.


Foi premiada com o Prêmio Kanitz Bem Eficiente em 1999, como reconhecimento de idoneidade e dedicação ao trabalho e também premiada como mãe de criança especial que mesmo com poucos recursos lutava em prol dos portadores de deficiência. Teve grande participação no projeto de transporte Eficiente de Niterói. Atuou na elaboração da equipe fellow Up da Apae/Niterói.


Quanto ao carnaval, na época em que ela atuava na APAE fez contato com a GRES Mangueira, escola de seu coração, com Dona Zica, Dona Nelma e a cantora Alcione que visitaram a Instituição e abriram espaço para os nossos alunos desfilarem na Mangueira do Amanhã para o carnaval de 1992. Um erro médico impossibilitou que sua filha desfilasse junto com Alcione em um carro alegórico e a Marron ficou muito triste com a situação e não aceitou outra criança para desfilar com ela, mas manteve a ala. A Escola de Samba em seu papel de inclusão social muitas vezes invisível.


Ná época a Luma de Oliveira era madrinha da sua filha na APAE e pagou toda a cirurgia dela. Foi ajudada por muitas pessoas e artistas globais principalmente a Glória Pires. Criou vários objetos e jogos para facilitar a vida das crianças excepcionais. Conseguiu um tratamento em Petrópolis e trouxe esse trabalho para APAE que beneficiou diversas crianças.


O casamento terminou e, com filho ainda muito pequeno, sem emprego começou a vender caipirifruta e cachorro quente em festas de rua e na porta da Viradouro em períodos de ensaios, shows e também nos ensaios da Amaral Peixoto. Era o carnaval, Mundo do Samba, criando renda, sustentando pessoas.


Era a mulher trabalhando na rua, em casa e educando. E sua filha vivia doente, sempre internada na UTI do Hospital das Clínicas em Niterói; ela se lembra de quantos ensaios da Viradouro na Amaral Peixoto passou revesando entre CTI e barraca de cachorro quente na Amaral Peixoto, juntamente com seu filho.


Nunca passou pela sua cabeça que um dia estaria nessa condição de estar numa ala na Viradouro e muito menos com a formação acadêmica de carnavalesca que, posteriormente contaremos mais detalhes.


Em face da necessidade da APAE, é contratada para administrar, deixando o cargo de diretora financeira voluntária passando a ser funcionária, com atuação em diversas localidades, dedicando ainda mais ainda à Instituição. Em 1999 um anjo retornou ao céu. Em 2000, devido aos problemas sérios de depressão e estresse do trabalho, deixou a Instituição. Teve o convite e a chance de tornar essa história num filme, mas não aceitou.

Em 2001, já se recuperando foi trabalhar em uma cooperativa como analista financeira, por mais quatro anos, obteve também sucesso na empresa, porém ficou doente pois estava trabalhando com o que não gostava.


Seu filho, Wellingthon, incentiva a Fênix a retornar ao ninho e renascer.


“Gilza Freire e ela viu uma placa de pré-vestibular comunitário, ela parou o carro e falou vai lá e se inscreve. Eu fui me inscrevi e fiz vestibular, fiz Enem.” Conta Jaqueline


“Descobri que na UNIGRANRIO tinha o curso de artes visuais e licenciatura, eu não tinha intensão de ser professora, mas fiz a graduação e licenciatura na Unigranrio em Caxias à noite. Eu ia todos os dias me formei e nunca mais parei com a arte. Em minhas pesquisas para o projeto de conclusão de curso eu me apaixonei pela cultura do carnaval.”


Observou que pouco se falava das mulheres como carnavalescas e como profissional do carnaval, conheceu a história da Rosa Magalhães e se identificou. Como conclusão de curso fez sua monografia intitulada “A força Feminina e as transformações nos enredos das escolas de samba do Rio de Janeiro”, a qual será publicada e lançada em breve, conta Jack.


No final da graduação por conta das suas pesquisas teve a oportunidade de conhecer melhor a Viradouro. Elenice, da Ala dos Compositores, apresentou-a à Olga – da Galeria da Velha Guarda, que a levou para a Velha Guarda, onde foi muito bem recebida e pode fazer uma entrevista com as componentes da ala. Essa entrevista está na monografia.


E no mesmo ano recebeu o convite para participar da Ala dos Compositores, onde pode conhecer poetas maravilhosos; fez vários amigos e logo se identificou com esse universo. Participou com samba-concorrente no enredo Alabê de Jerusalém, com a Compositora Yara Mathias. Aprendeu a amar a Viradouro e sua história através do amor que recebeu na Ala dos Compositores e sente muito orgulho de falar: “Essa é a minha Escola! Essa é minha Ala!”


Não parou por aí. Ao apresentar sua monografia, a qual a banca foi unânime com a nota 10, foi convidada para ingressar no mestrado do Programa de Mestrado e Doutorado em Artes Visuais da Escola de Belas Artes da UERJ-PPGAV em Arte Psicanalista, com o professor e coordenador Alexandre Sá Barreto e também como ouvinte da turma de Carnaval Felipe Ferreira, diretor, historiador e autor de vários livros sobre o Carnaval; suas obras serviram muito como objeto de pesquisa para sua monografia.


Iniciou o mestrado na UERJ, mas era necessário saber inglês e não deu continuidade. Novas buscas se iniciaram e encontrou a Pós-Graduação em Figurino e Carnaval na UVA, Universidade Veiga de Almeida. Iniciou em 2017 e terminou em 2019 e como trabalho de conclusão de curso deu continuidade à pesquisa de graduação intitulada, Mulheres “Carnavalescas” no carnaval carioca, profissão do universo masculino. A proposta de Jack era fazer a reflexão desse assunto em outra instância. Também pretende publicar.


Na pós-gradução surge seu grande despertar para o carnaval. Pode ter contato direto com o fazer carnavalesco; realizou alguns trabalhos de pesquisas como conclusão das disciplinas. Teve excelentes Professores Carnavalescos, como por exemplo, o carnavalesco Edson Pereira, com quem estagiou como assistente de alegorias no barracão da Viradouro para o carnaval de 2018, trabalhando no carro abre alas, onde ele deu carta branca para criar junto ao aderecista. O carro foi um sucesso.


Em 2019 o Edson foi para a Vila Izabel e assim pode ter a oportunidade de conhecer a Escola, estar no barracão e desfilar em uma ala criada pela sua turma da Pós-graduação. Também em 2019, com o professor Jack Vasconcellos, como carnavalesco da Tuiuti na época, criou seu próprio figurino para desfilar no carro: “Foi uma experiência incrível”.


Nesse mesmo ano assinou um carnaval autoral do GRES Acadêmicos de Niterói, com o enredo Mulher, a “Raiz" do Samba; os figurinos ficaram lindos, todos criados por ela. Para o carnaval de 2020 assumiu como Assitente de Carnavalesco, o GRES Balanço do Fonseca e o GRES Grilo da Fonte, em Niterói.


Lecionou como Professora de Artes em três escolas no ensino fundamental 2 - no E.M. Rachide da Gloria Salim Saker; Ciep 412 Dr Zerbini Sao Gonçalo e no Colégio Gonçalense, onde pode exercer o seu papel como Arte/Educadora e fazer a diferença na vida de cada aluno através do ensino da arte. Cita Jack que foi uma experiência Impar!


Especialista em Mandalas. Integrante da Para retratar a arte milenar das Mandalas, a artista busca na Natureza os elementos necessários: areia de praia, conchas, pedras - Essas pedras, além de sofrerem o efeito do sol e da chuva, estão em baixo da terra e ganham certo brilho que dão harmonia às suas obras. Realizou várias exposições, entre elas, Saral de Artes e Poesia da Primavera ANBA – Academia Niteroiense de Belas Artes sendo 2 obras premiadas com medalha de bronze; Exposição na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) – Mandalas; Exposição Museu Ciência e Vida em Duque de Caxias – Escultura Contemporânea.


· Associada na ONG Brasil Soka Gakkai Internacional – Sociedade Educacional de Criação de Valores - Dirigente voluntária de Comunidade;


· Acadêmica da ANBA – Academia Niteroiense de Belas Artes;


· Colaboradora da OAB Mulheres – São Gonçalo;


· Atualmente é pesquisadora no PACC- Programa Avançado de Cultura Contemporânea - UFRJ - Universidade das Quebradas.


· Sócia voluntária da ONG Brasil Soka Gakkai Internacional – Sociedade Educacional de Criação de Valores.

Oswaldo Mendes é engenheiro.




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