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João Pedro, por Mário Lima Jr.


Mais um jovem negro foi assassinado a tiros pela polícia no estado do Rio de Janeiro. Se chamava João Pedro, tinha 14 anos e brincava com os primos em casa quando foi executado, com o aval da política de extermínio do governador Wilson Witzel.


Antes de falecer sozinho, sem a presença dos pais e de nenhum representante da família, literalmente nas mãos dos assassinos que sequestraram seu corpo ferido, João sofreu o terror de ouvir setenta e dois disparos contra as janelas e paredes de casa. Uma granada, também da polícia, explodindo na porta. Os gritos dos policiais invadindo a residência e mandando os jovens aterrorizados, já deitados no chão, calarem a boca talvez João não tenha ouvido. Estava desmaiado por causa do tiro de fuzil que entrou pela barriga e saiu no ombro. Armamento comprado com o dinheiro do contribuinte fluminense.


Transformando policiais em bichos sanguinários ansiosos por apertar o gatilho, o Estado sempre mata com crueldade e deboche. Os celulares da vítima e de mais dois adolescentes ainda foram roubados pela polícia. Nenhuma autoridade pode tomar o bem de um cidadão sem investigação e amparo judicial, principalmente se for um rapaz que acabou de tomar um tiro de fuzil brincando dentro de casa.


Tanto quanto Witzel sabemos dos riscos de um confronto direto armado, iniciado de propósito, onde vivem milhares de adultos e crianças inocentes. Tempos atrás se dizia que “bandido bom é bandido morto”. A expressão caiu em desuso. Hoje se defende a morte de inocentes como algo inevitável, até necessário. Desde que o defensor não esteja na trajetória do tiro.


Moradores da cidade de São Gonçalo, onde o assassinato ocorreu, o pai de João Pedro chamou o caso de “fatalidade”. A mãe disse que acredita que “a Justiça será feita”. São demonstrações de inocência, força e esperança que não combinam com o resto do Rio de Janeiro. Vem das vítimas a razão para não entrarmos em desespero total, quando nós, aqueles que ainda não choraram o assassinato dos seus filhos, deveríamos oferecer apoio.


Em entrevista ao jornal O São Gonçalo, a mãe de João afirmou que é confortante o fato do nome do filho não ter sido associado ao tráfico de drogas pela polícia, como acontece com diversas vítimas inocentes. De certa forma, a polícia sempre tenta fugir da culpa. Na versão policial, bandidos pularam o muro da casa. História completamente diferente do depoimento das testemunhas presentes.


Existe apenas uma pequena contradição no meio das dezenas de declarações dadas à imprensa por familiares e amigos que viram o assassinato de João Pedro: algumas reportagens dizem que João jogava videogame com os primos na sala de casa quando os tiros começaram. Outras matérias afirmam que os meninos jogavam sinuca em um cômodo externo, a alguns metros de distância da sala, e correram pra dentro quando ouviram o helicóptero da polícia voando baixo. Nenhum depoimento coloca em dúvida a inocência das pessoas no local e a brutalidade das forças policiais. Inevitável é dizer setenta e duas vezes que João Pedro se tornou mais um jovem inocente assassinado por quem deveria protegê-lo, e não há conforto para a tragédia vivida no Rio de Janeiro.

Mário Lima Jr. é escritor.



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