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Jogos de assédio: Integralistas forçando a Porta dos Fundos, por Sammis Reachers


Eu era praticamente uma criança, mas conheci certa vez um integralista “original”. Isso em plena São Gonçalo! Era o doutor Arcy Estrella, morador do Rio do Ouro. Meu pai, velho mecânico de máquinas de escrever e mimeógrafos, prestava serviços para Arcy, que mantinha cursos de datilografia em sua casa em Rio do Ouro, de frente para a rodovia RJ 106.


O doutor Arcy, advogado e jornalista, sempre enviava por meu pai um informativo de certa “associação de integralistas” da qual ele era presidente. Coisa de naftalina, sabe? Aquilo me atiçava a curiosidade juvenil, o que me fez pesquisar sobre o movimento. Apurei que aquilo se resumia a patriotada e fanatismo. À parte disso, consta que Arcy (que por suas atividades chegou até a ser preso pela Ditadura, veja você!) era homem de excelência: sendo advogado, ajudou - sem cobrar honorários - a muitos moradores de Rio do Ouro e adjacências na regularização de seus terrenos e moradias, que eram ameaçadas pelos interesses dos eternos herdeiros dos antigos fazendeiros da região. Mas isso é história, quem sabe, para o memorialista do Jornal Daki, o nosso grande Erick Bernardes.

Nessa semana que passou o Brasil foi surpreendido por um “atentado” à coquetéis molotov, direcionado contra a sede da empresa de mídia Porta dos Fundos. O atentado a princípio parecia coisa de adolescentes (embora evangélicos tenham sido logo acusados), mas um vídeo na internet, teatral naquela ritualística de máscaras, poses e até bandeiras (neste caso, uma do Brasil Império!) à la Sendero Luminoso, Estado Islâmico ou o que seja, dava conta de que os autores do atentado eram “integralistas”.


A patota da patriotada, ultranacionalista e ultracatólica, assumia a bronca, o B.O. É isso mesmo? Vamos lá. Primeiro, não sabemos ainda se tal grupo terrorista “existe” ou se são apenas factóides (personagens) criados por algum indivíduo ou grupo, com objetivos diversionistas ou sabe-se lá quais sejam. De toda forma, a situação é gravíssima e digna da preocupação do povo e das autoridades.


- Ei, mas e o Porta dos Fundos?



Como cristão, confesso que me abstive de ver a referida sátira natalina, motivo da quizumba, mas tomei conhecimento do conteúdo e sim, me entristeci um tiquinho com o desrespeito à fé. Mas toda essa palhaçada pouco me diz: não emiti opinião, nem mesmo em redes sociais, sobre o fato. Pois o bom Jesus não precisa de advogados (ainda mais com os preços de hoje em dia), mas sim de imitadores. Afinal o exemplo, qual força da natureza, arrasta. E mais: sempre preguei que o humor é uma arma de desarmar. Atingindo os inatingíveis, em geral em seu ponto mais fraco, desconstrói muralhas e marras e tem sua razão de ser, assim como as vacinas e o extrato de tomate.


MAS um agravante compromete o trabalho dos humoristas: é patente o tom panfletário de Porchat, cético declarado, em sua cruzada de botequim contra o que ele acredita ser o cristianismo. E esse posicionamento, digamos, ideológico é que depõe contra ele e seu trabalho, configurando sim, desrespeito – por despencar do humor para o escárnio. Mas nada que fira as leis, nada que justifique violência, de que cor e teor ela seja. Nada que justifique, mas...

Correndo por fora de nossa civilidade, insistentemente bolinando o nosso contrato ou pacto social, há “leis” obscuras que insistem em legislar, à margem (ou nos porões) de nossa vontade. Uma delas é aquela clássica, hamurábica, que diz que “violência gera violência”.


O trabalho de Porchat e cia., se panfletário (atenção ao SE), configura algum tipo de violência bastante sutil, mas suficiente para colocar em movimento as sinistras engrenagens da referida lei do retorno. E quem há de controlá-las? A civilidade?


Tarde demais.


Resumindo: deu no que deu, um quadro que, acredito, não interessa a ninguém, fora a meia dúzia de aloprados de sempre. Jamais devemos aceitar e justificar um ato (a ser comprovado) terrorista. JAMAIS. Ainda mais por questão fútil. Mas a posição inconsequente dos humoristas, adolescentes tardios, sob desculpa de combater uma “homofobia” eminentemente evangélica que sim, precisa ser combatida mas não, não é evangélica, porém cultural (em 1950 os evangélicos eram 5% da população; em 1850, 0%.


A homofobia, colossal, já estava lá), faz com que atirem no buraco que acreditam ver e atinjam em lugar nenhum – pois o buraco é muito mais embaixo. Confortáveis em sua “branquitude” de Leblon, Botafogo, Barra da Tijuca e PROJAC, só ajudaram a polarizar ainda mais o país, num momento em que os ânimos já estão nos extremos. Transportando para outra e maior dimensão, se equívocos de certo governo geraram condições para o inimaginável, ou seja, a assunção desses fascistóides que aí estão, a lição de nada serviu: o cruzar de uma linha vermelha (se não de fato, ao menos de momento) em nome de uma “liberdade de expressão” niilista, deu azo ao surgimento de um absurdo que agora não poderia ser mais reputado como inimaginável, mas uma probabilidade no jogo.


Probabilidade que a rapaziada avant garde do Baixo Leblon, gente muito bacana, resolveu peitar. E a treta está feita, senhores. Rolando (e respingando) montanha abaixo.


***

Alguns livros (gratuitos) que escrevi ou organizei podem ser baixados AQUI.

Um pouco de poesia experimental? Eu experimento AQUI.

Sammis Reachers, nascido por acaso em Niterói mas gonçalense desde sempre, é poeta, escritor e editor, autor de sete livros de poesia e dois de contos, e professor de Geografia no tempo que lhe resta – ou vice-versa.

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