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Luis Celestino e Sabina, por Paulinho Freitas

SÃO GONÇALO DE AFETOS

Arte a partir da foto de Paulinho Freitas

Num sinal de transito avisto um casal. Ela dentro de um carrinho de supermercado e ele a empurrar o carrinho. Pensei se tratar de uma emergência, ela sentindo algum mal estar e ele a levá-la para o pronto socorro. Parei o carro alguns metros à frente e o interpelei:


- Boa tarde amigo. Precisa de ajuda? Ela tem algum problema?


O sujeito parou de empurrar o carrinho e com cara de poucos amigos respondeu:


- Ela está cantando. Você já viu alguém que está sentindo alguma coisa de ruim no corpo cantar?


Eu fiquei meio sem graça e respondi titubeando:


- Não. Mas é que...


O cara já meio enfezado, mas com uma “estranha educação”, na minha ignorante opinião, pela condição dos dois me respondeu:


- Minha esposa gosta de andar sentindo o vento no rosto, ela diz que abre os pensamentos e vê as coisas da rua com detalhes que ninguém vê, ela é dengosa e eu, na medida do possível faço as vontades dela, então eu a coloquei dentro deste carrinho de compras para chegarmos mais rápidos ao nosso destino, o qual o senhor agora atrapalha.


- Me perdoe amigo, respondi, só tentei ajudar. Onde vocês querem chegar? Eu posso dar-lhes uma carona.


- Eu lhe pedi carona amigo? Eu fiz algum sinal pedindo parada? Acho que não. Então, por gentileza, haveria a possibilidade de o senhor retirar o seu veículo, que por sinal está cheio de poeira, de nossa frente para que possamos seguir caminho?


Meus amigos desculpem a expressão, mas que esporro!


- Tranquilo irmão, respondi. Siga seu caminho, vai com Deus e me desculpe o empecilho.


No sábado seguinte, naquele corre-corre das compras semanais, ali, na Praça do Rodo onde tem aquele obelisco enorme que ninguém sabe para que serve, deparei com os dois ali embaixo olhando um artista pintando “aquilo.” Os dois conversavam como se fossem dois intelectuais numa vernissage, só faltava os charutos e as taças de champanhe ou outra bebida chique que compusesse a cena. Aí, eu no alto de minha intelectualidade me aproximei e enquadrei a dupla:


- Vocês vieram fazendo esse malabarismo todo no transito pra vir admirar este monumento que a maioria do povo não sabe pra que serve ser pintado? O rapaz me olhou como se fosse um maçarico pronto para derreter um material de baixa qualidade, mas com a educação de um gentleman me explicou:


- Amigo, este obelisco foi erguido para lembrar ao povo gonçalense de que aqui era onde o bonde fazia o retorno, aqui acabava a civilização, depois daqui era uma área rural ou matagal e manguezal. O que está sendo feito é uma aquarela por um dos maiores artistas de São Gonçalo, o Marcelo Eco. Este momento que o senhor está presenciando é um momento histórico. Daqui há cinquenta anos vão lembrar deste momento e alguns privilegiados, como eu e como o senhor seremos lembrados como testemunhas.


Eu já não tinha onde enfiar a cara de tanta vergonha, mas para tentar me redimir de tamanha humilhação sofrida ainda tentei me chegar:


- Que legal saber disso! Obrigado irmão por esta aula, vamos tomar um café? E durante o café levei outra pancada:


- Meu chefe, desculpe não ter aceito sua carona mas eu gosto de viver a história, a história é como a paisagem, como a nuvem, como a floresta e o céu, ela não mora na velocidade do sucesso, ela mora andando, enamorada pelos acontecimentos, pelo que se derruba e pelo que se levanta e pelo que, mesmo derrubado não se deixa esquecer, o que a memória guarda para contarmos aos ignorantes.


A mulher, sempre dentro do carrinho sorria o sorriso da vida, altiva e feliz. Posso saber o nome de vocês, perguntei.


- Ele sorveu um gole do café que com este calor estava mais quente que as lavas de um vulcão e respondeu:


- Luis Celestino e Sabina.


- Muito prazer, respondi, Paulinho Freitas.


É..., os mestres, nascem mestres.

Paulinho Freitas é cantor, compositor, sambista e escritor.



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