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Medo e tristeza pela violência nunca foram tão grandes, por Mário Lima Jr.


Pensei em listar lugares, serviços e eventos interessantes que surgiram em São Gonçalo nos últimos anos. Desisti da ideia depois de saber que um mototaxista foi morto e duas pessoas foram baleadas, terça-feira passada, no ponto de ônibus da Praça do Bandeirante, no bairro Amendoeira. No dia seguinte um militar da Marinha foi assassinado na Avenida do Contorno, em Niterói, trecho onde milhares de gonçalenses passam todos os dias em direção ao trabalho. Não é o momento de listar coisas agradáveis. Há algo mais grave no ar, uma depressão que une os moradores de São Gonçalo em silêncio quebrado apenas pelo choro.

Me lembraram de que tiros no Amendoeira e na Avenida do Contorno, infelizmente, não são novidade. Essa é a questão. Os últimos crimes na região levaram o gonçalense a um cansaço profundo, inédito. Como Davidson, assassinado no Contorno, as vítimas baleadas no Amendoeira estavam indo trabalhar. São Gonçalo se tornou um município onde pessoas são atingidas aguardando o ônibus para garantir o sustento da família. Diante de um fato assim, as barricadas do tráfico não são mais a pior agressão que existe à cidadania. A violência tem se manifestado de formas cada vez mais cruéis e mais frequentes contra os moradores da cidade.


Em novembro uma criança de apenas três anos foi baleada na cabeça, no Rocha. Homens armados invadiram sua casa atirando e mataram um rapaz de 25 anos. Alguns meses antes, uma menina de 11 anos foi baleada no pescoço, no Jardim Catarina. Ainda em 2019, estilhaços de um muro atingido por tiros feriram um garoto de 9 anos, no Novo México. A rotina municipal se converteu em homicídios, chacinas na porta dos bares, crianças e trabalhadores baleados. O medo acumulado pelos gonçalenses pode ser sentido em uma conversa com qualquer morador da cidade, estresse psicológico semelhante ao encontrado em países em guerra.

Após o enterro de Davidson no Cemitério Parque da Paz, no Pacheco, o comboio dos fuzileiros navais passou em frente à Favela da Central, no bairro Raul Veiga, lugar onde a violência e a pobreza imperam. Os muros estão tomados por pichações com nomes de facções criminosas rivais que se revezam no domínio da região. As crianças da favela ganham uns trocados vigiando carros estacionados ao lado de um lixão e os adolescentes passam a tarde se drogando à sombra das árvores do campo de futebol. O comboio militar e a favela ilustram um antigo mal brasileiro: a sociedade e o Estado admitem a pobreza e a violência ao lado.

As tragédias que São Gonçalo vive são muitas porque grande parte da cidade não pertence mais aos gonçalenses, pertence ao crime. Evitar novas mortes que rasgam a alma dos parentes das vítimas implica em reassumir o controle do território perdido e substituir a violência que nasce no local por dignidade humana. Não há esforço na Alerj, no Palácio Guanabara ou em Brasília nessa direção. Na verdade há estímulo à violência e à desigualdade através da íntima relação entre políticos e milicianos e apoio financeiro a bandidos.

Talvez a gente precise mesmo saber onde recarregar as energias, ter duas horas de paz. Depois voltar à luta e cobrar governos que planejem com seriedade sobre desenvolvimento social e segurança pública.

Mário Lima Jr. é escritor.




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