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Mesmo com pandemia, o gonçalense nunca foi tão feliz, por Mário Lima Jr.


Foto: Fabiano Barreto, Piscinão de São Gonçalo

Saí de casa na terça-feira, dia 21, pra comprar na Rua da Feira alguns produtos que minha esposa revende pela Internet. Ainda no Vila Três, nos bares em frente ao valão que corta o bairro, vi uma felicidade que não se abala com o cheiro do esgoto que vem do valão e se mistura ao aroma da cerveja barata. Uma alegria que, ao invés de diminuir, se fortalece diante de uma pandemia mortal que se mostra mais cruel após a reabertura do comércio. A tentativa de isolamento social deve ter provocado no povo um sentimento oposto: a vontade de curtir, com pressa, o mais simples da vida.


Faltavam dez minutos para quatro horas da tarde. O trânsito na região de Alcântara era um caos parecido com as rodovias estaduais antes de um feriado prolongado. Pra ganhar espaço no engarrafamento, os mototaxistas subiam na calçada de pedestres e voavam do meio-fio para o meio da pista, na frente dos carros, buzinando como loucos, com o passageiro balançando na garupa sem deixar o copo de açaí cair. A multidão atravessava de uma esquina pra outra, migrando em busca de promoção.


Muitos pedestres usavam máscara na Rua da Feira, já os vendedores praticamente aboliram a proteção e recebiam os clientes nas lojas físicas sorrindo despreocupados. O mesmo relaxamento da gata peluda esparramada na calçada perto da esquina com a rua Laureano Rosa. Soberba como uma rainha, descansando sem acreditar que podia ser pisoteada a qualquer momento. Felicidade pura é viver sem preocupação alguma.



Cada gonçalense pode parecer um monarca, dono da cidade inteira, concentrado em uma ação única: virar um copo de cerveja pra dentro da boca, sentado na mesa do bar, ou contar uma história a uma amiga no portão, no caso das donas de casa. Aliás, os bares contam com a presença das mulheres e os homens adoram uma conversa no portão. Seria um desperdício da vida em São Gonçalo se não fosse assim.


No caminho de volta pra casa, passei pela praça CHICO MENDES. O trecho da praça que foi reformado estava lotado pela galera aproveitando o fim de tarde. Adultos se exercitavam nos aparelhos de ginástica, a juventude praticava parkour e flutuava na pista de skate e a criançada brincava na quadra de esportes, gritando e correndo ao mesmo tempo. Nunca tinha visto a praça tão cheia, nem antes da pandemia de corona.


O sol já tinha ido embora, mas as lojas de pipas do bairro Raul Veiga ainda estavam abertas e vendendo. Na rua que faz esquina com a rua onde moro, os meninos andavam de bicicleta e jogavam bola. Seus responsáveis batiam papo, segurando bebês no colo. Na minha rua rolava um altinho que me lembrou as partidas de futevôlei disputadas pelo Romário na Barra da Tijuca, pela qualidade dos jogadores. A diferença é que em São Gonçalo o jogo não acontece na areia, mas na rua concretada pelos moradores. E ao invés da vista pro mar, temos a vista pra barricada e das valas de esgoto, onde de vez em quando a bola cai.


Tudo isso numa saída de menos de duas horas, numa terça-feira sem comemorações especiais. Com gente se contaminando nas filas gigantescas dos bancos, adoecendo e depois morrendo. O usual em São Gonçalo é estranhamente alegre e pesado, até pra quem vive há 30 anos aqui. Não há um lugar no município onde o morador do bairro Barracão não possa ir vestindo a mesma roupa que usou pra dormir, nenhuma divisão social o impede. Algo que preserva a identidade do povo e a capacidade de persistir sem medo diante da morte, da pobreza e da violência.

Mário Lima Jr. é escritor.




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