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Mudanças, por Fábio Rodrigo


Romeu era um menino adorado por sua família. Na escola, era o preferido dos professores. Seus pais se enchiam de orgulho do filho ao ver seu boletim escolar. Aos domingos, sua presença assídua na igreja cativava a todos. Era coroinha. Imaginava-se que o futuro do garoto seria o sacerdócio. Mas os anos se passaram e o sonho da formação sacerdotal ficou bem distante. Principalmente quando chegou à adolescência.

Aos dezoito anos, o amor ardente por sua namorada e o desejo de se casar com ela o fez abrir mão de ser padre. Entrou para a universidade. Conheceu uma rapaziada que o fez mudá-lo radicalmente. De católico fervoroso, tornou-se ateu e frequentador de todas as festas raves. Fez parte do diretório acadêmico e foi militante comunista. Liderou inúmeras manifestações realizadas por estudantes na Candelária. Era marxista convicto. Seu maior sonho era realizar uma revolução socialista na América Latina.


Terminou a faculdade de economia e ingressou no mercado de trabalho. Conheceu uma jovem na empresa em que trabalhava que o fez ver a vida de outra maneira. Melissa era seu nome. Casou com ela e teve seu primeiro filho. Vinculou-se ao movimento gnóstico. Passou a estudar a fundo os textos apócrifos do cristianismo primitivo. Integrou-se em um grupo de estudos da filosofia antiga até a contemporânea. Dentre as suas leituras, foi influenciado diretamente pelas ideias de Arthur Schopenhauer. Ficou desgostoso com a vida. O fim de seu casamento inclusive o fez cair em profunda depressão.



Até que conheceu Sofia, uma linda artista plástica. Com ela, desenvolveu sua veia artística. Passou a escrever poemas e a recitá-los em diversos saraus pela cidade. Tomou gosto pela literatura marginal. Também virou fã do cinema alternativo. Ganhou uma coluna em um jornal literário, que era distribuído gratuitamente à noite nos bares de um bairro boêmio. O consumo de álcool e de drogas ilícitas fazia parte de sua rotina. A vida desregrada o fez perder seu emprego. Até seu casamento foi pro espaço. Internado no hospital, em um de seus comas alcoólicos, conheceu Letícia, uma linda enfermeira.


Quando veio o diagnóstico de cirrose, Romeu passou a se preocupar com sua saúde. Letícia, agora sua esposa, foi sua grande incentivadora para a mudança de hábitos. Ela o levou para a igreja evangélica. Veio seu segundo filho. Cultivava uma vida sem vícios e estava feliz com sua nova família e seu novo emprego. Após tomar conhecimento de denúncias contra o pastor de sua congregação, ficou descrente de tudo.


Separou de Letícia e assumiu seu relacionamento com Jonas, um colega de trabalho. Passou a morar com Jonas em um pequeno apartamento e com ele veio o gosto pela prática de esportes radicais. Escalada, Rafting, Rapel, Mountain Bike... Romeu e Jonas viraram veganos. Estudaram gastronomia juntos e decidiram abrir seu próprio restaurante. Mais tarde, dívidas com fornecedores e ações trabalhistas o levaram a fechar as portas. Depois de anos juntos, os dois brigaram e Romeu jurou nunca mais vê-lo nem pintado de ouro. Problemas financeiros e casamentos fracassados o fizeram repensar suas escolhas. Romeu aos poucos foi ajeitando sua vida. Hoje, convertido ao budismo, Romeu dá aulas de tai chi chuan.

Fábio Rodrigo Gomes da Costa é professor e mestre em Estudos Linguísticos.



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