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Mulher, negra e que sonha, por Cristiana Souza


Foto: Arte de Lari Arantes

Talvez seja muito difícil dizer o motivo pelo qual desistimos de alguns sonhos e desejos em nossas vidas, outrora tidos como essenciais para alcançarmos a tal felicidade.


Não raro, toma-se conhecimento de pessoa desistindo de atuar na profissão da qual se qualificou, por se sentir frustrado, pouco valorizado, sofrendo assédio moral no ambiente de trabalho.


Aliás, o assédio, é um dos motivos que geram adoecimento mental e físico, e consequentemente ao afastamento das atividades de trabalho:


"O assédio moral ocorre quando o trabalhador é submetido a situações repetitivas ou sistematizadas, de humilhação, degradação, situações vexatórias, hostis, vulgares ou agressivas, entre outros no ambiente de trabalho".

Me tornei uma proletariada na década de 1990, porém naquela época desconhecia o barbudo Karl Marx e o Manifesto Comunista; então minha rotina era trabalhar para contribuir na renda familiar, sem nenhuma consciência de classe.


Exerci durante muito tempo, funções mecanizadas das quais aprendia através de treinamentos e encontros com coach, o qual era contratado para fazer o funcionário acreditar que alcançar a meta da empresa nos tornaria parte dela, quando na verdade, nada mais era que a mais valia absoluta[1].


Ao olhar para trás, percebo o quanto de sonhos e oportunidades ficaram pelo caminho, contudo analisar nossos erros é necessário para que possamos nos fortalecer para uma trajetória diferente do ponto de partida.



Muitos duvidam de que uma mulher negra, pobre e periférica seja capaz de estudar, ter uma profissão, ser independente e realizada. Posso afirmar que alcançar tudo isso é extremamente difícil e não tem nada de meritocracia e tão pouco privilégios quando conseguimos furar a bolha do patriarcado e machismo presentes em nossa sociedade. E sim, eu faço parte da estatística de mulheres negras, pobres e periféricas que fizeram um curso superior através de políticas afirmativas governamentais.


É necessário mencionar que a profissão da qual escolhi (assistente social), vem sofrendo ataques constantes num cenário de desmonte e sucateamento das políticas públicas dia após dia. Exercer a profissão nessa configuração exige muita coragem e sorte.

O cenário atual é sombrio e nefasto, mas não podemos deixar ter esperança, sonhar e seguir lutando por uma sociedade mais justa e igualitária.


"Sonho que se sonha só

É só um sonho que se sonha só

Mas sonho que se sonha junto é realidade".

(Raul Seixas)

1. Nota do editor: Para esse e outros conceitos/definições que existem no marxismo, que é um pensamento vasto e que moldou a forma como nos debruçamos no sistema capitalista, disponibilizamos o link do Dicionário do Pensamento Marxista (Ed. Zahar). Se não clicou lá, clique AQUI.


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Cristiana Souza é Assistente Social.


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