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Narrativas históricas gonçalenses, por Mário Lima Jr.


Quadro do pintor Antonio Parreiras representando o Porto da Madama em 1905

A cidade de São Gonçalo tem 440 anos de história. Algo grande demais para acharmos que estamos condenados aos copos de plástico espalhados nas ruas de Alcântara. Estudar como era a vida e os desejos dos habitantes do passado faz parte do processo de crescimento de toda cidade, esclarece os problemas do presente e mostra caminhos possíveis para o futuro.


Afirmo sem medo de errar: a diferença mais marcante entre a São Gonçalo atual e a do passado, até mesmo da primeira metade do século 20, quando era chamada de Manchester Fluminense, é o tamanho dos seus sonhos. A opinião pública tinha orgulho do município por ele compor a liderança da produção industrial fluminense, depois de ter sido uma potência agrícola nacional após o fim do século 19. Liderar cada vez mais era a vontade municipal, embora o crescimento, com pouco impacto social, não tenha sido sustentado.

Na mesma época, mais precisamente em 1931, o jornalista Belarmino de Mattos fundou o jornal O São Gonçalo. O intuito era que o veículo fosse “uma árvore imortal, árvore da inteligência, da vontade popular e das aspirações públicas” que ligasse o município aos quatro cantos do Brasil. O sonho de Belarmino refletia uma confiança que praticamente não existe hoje, sentimento que levou homens e mulheres a fundar as escolas, hospitais e associações mais importantes que a cidade dispõe. Exceto em alguns raros segmentos sociais, como a juventude que pratica arte e cultura nas praças, ninguém acredita que possa existir em São Gonçalo algo que ligue seu povo ao restante do país.


Antes também havia problemas. Quando a principal sesmaria do nosso território foi doada a Gonçalo Gonçalves, em 6 de abril de 1579, os ônibus não tinham ar-condicionado. Hoje pegamos um ônibus no Jockey e tiramos o casaco só no Centro da cidade. A missão de Gonçalo era penetrar na terra, conhecê-la e difundir a religião católica. Propósito gigantesco, ainda que os métodos usados Brasil afora tenham massacrado os povos nativos. Aos tempos atuais falta um propósito, por menor que seja, e a chance de corrigir os nossos erros.



No século 17 a preocupação era civilizar a terra descoberta, de acordo com o ponto de vista europeu. Os rios serviam para navegação e transporte, até o Rio Alcântara. Já os séculos 18 e 19 testemunharam o desenvolvimento e a modernização da região. É verdade que não havia limites para a ambição do explorador, mas hoje, quando a terra é nossa, não temos pretensão alguma e poluímos com milhões de litros de esgoto os rios que poderiam ser usados a nosso favor.


Tanto quanto o caos urbano e as barricadas do tráfico de drogas, podem fazer parte da narrativa contemporânea gonçalense a tecnologia, o hip-hop, a música e as religiões. Algo que beneficie diretamente os moleques que vendem balas e vigiam carros nos estacionamentos. Há iniciativas diferenciadas em cada uma dessas áreas e se fossem fortalecidas talvez não existissem tantas barricadas e garotos nas ruas.


As autoridades tampouco conhecem as vocações do município e o papel que ele deveria cumprir no mundo. Algo inédito na nossa história, assim como a injustiça de condenar a cidade com os olhos de hoje, olhos que não enxergam além do chão.

Mário Lima Jr. é escritor.


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