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No shopping, por Fábio Rodrigo


Era domingo e o shopping estava de portas abertas para o seu público. Dezenas de pessoas cumpriam com seu papel de mantenedoras dos bons costumes do local. Era hora de caminhar despretensiosamente e de cumprir com o ritual de olhar vitrines.


Situado em uma das áreas mais nobres da cidade, o shopping é a zona de conforto de quem vive na região. Passear por ele faz parte da rotina dos habitantes do local. O programa em família é percorrer cada corredor do shopping e se inteirar das novidades mercadológicas.

No meio de tantas pessoas que passeiam pelo shopping, todas brancas, eis que surge um grupo de três meninos negros. Os três caminhavam na mesma direção. A presença deles alterou consideravelmente o ritmo dos frequentadores. Eram três moleques que, com suas passadas aceleradas, chamavam a atenção do público em geral.


Diante dos olhares atentos dos frequentadores, os garotos seguiam seguros rumo a seu destino. Um segurança surge de súbito no meio do corredor e olha fixamente a movimentação dos jovens meninos. Em seguida, diz alguma coisa em seu rádio de comunicação. Provavelmente informa a presença de elementos suspeitos no local. O público em geral, bastante apreensivo, finge não perceber a situação desconfortável em que se encontrava. Era um momento de pura inquietação.



Os três meninos já chegaram ao fim do corredor. Não é possível mais vê-los. Mas onde estarão agora? Não importa. O que importa é que estão longe. Logo depois, outro segurança desponta entre os passantes. E, com seu desapressado caminhar, transmite total confiança a todo o público. Todos percebem que não há mais perigo. Não há com o que se preocupar. Tudo voltava ao normal. Era hora de voltar a caminhar despretensiosamente e de cumprir com o batido ritual de olhar vitrines.

Fábio Rodrigo Gomes da Costa é professor e mestre em Estudos Linguísticos.



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