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No sinal, por Fábio Rodrigo


Foto: Paulo Roberto de Freitas

Era domingo. Aproximadamente 11 horas da manhã. O carro havia parado no sinal. Dentro dele, uma típica família de classe média. No volante, o pai. Ao lado dele, sua esposa. E, no banco de trás, o casal de filhos: um menino de cinco anos, entretido com um jogo no celular, e uma menina de 1 aninho na cadeira bebê-conforto. Vinham de volta pra casa, após o culto da igreja. Rotina que a família faz todo domingo.

Enquanto aguardavam o sinal abrir, um grupo de malabaristas fazia seu espetáculo à frente dos carros. Todos eles negros, raquíticos e muito jovens. Estavam em busca de uns trocados para sua sobrevivência. Um deles avistou a linda menina que estava no banco de trás do carro da família que regressava da igreja. Ao se aproximar do carro, os vidros já estavam completamente cerrados. O jovem negro encostou seu rosto no vidro da janela e, com um simples gracejo, contagiou a bebê, que, prontamente, retribuiu espontaneamente sorrindo. Os pais da criança, intrigados com a presença do jovem negro, acompanhavam a cena. O negrinho, com seu gesto singelo, conquistara a linda criança. A bebê procurava encostar suas mãos no vidro com o intuito de tocar na face dele. Estava encantada com a presença do jovem. Talvez aquela criança nunca havia visto um jovem negro em sua vida. Estava ela diante de alguém muito distante socialmente mas tão próximo de afetividade. Os vidros do carro os separavam. No entanto, pareciam muito próximos. Os pais não diziam nada. Estavam perplexos. Talvez nunca tinham visto sua filha de um ano tão familiarizada com alguém logo no primeiro encontro. Era um choque para eles.


O sinal abriu. Tão logo a cena se desfez. Imediatamente o carro com a família arrancara e deixava pra trás toda e qualquer possibilidade da cena ser refeita. A criança, atônita, tentava entender o sumiço repentino de seu amigo. O filho de cinco anos perguntou aos pais o porquê do jovem negrinho brincar no sinal. O pai, ao volante, permanecera em silencio. A mãe então respondeu: “porque ele não tem pai e mãe para brincar com ele”. A sentença explicativa, que não explicava nada, serviu para saciar a dúvida do menino. Refeito da dúvida, o menino então voltou a se concentrar no jogo do celular enquanto a família voltava em silêncio para casa.

Fábio Rodrigo Gomes da Costa é professor e mestre em Estudos Linguísticos.


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