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O último casal com coragem de passear com os filhos em São Gonçalo, por Mário Lima Jr.


O rapaz desce o morro dois metros à frente do restante da família. Sério e atento como um segurança profissional, ou soldado das forças especiais do Exército.


A moça segue atrás, empurrando o carrinho com um garotinho de aproximadamente um ano de idade dentro. Esperto como o pai, ao invés de se deitar ele mantém a coluna ereta, segurando no apoio frontal do veículo, olhando tudo em volta.


Paralela à moça e a uma distância segura, aparece uma menina alegre que dá um pulo a cada três passos. Os cabelos soltos atrás, presos na frente por um arco, pulam junto com ela, que de vez em quando carrega uma boneca.


O pai desvia da barricada primeiro. Duas montanhas interpostas de barro e pedra quase da sua altura. A mulher com o carrinho copia o mesmo zigue-zague feito pelo marido protetor, pelo meio dos montes. A menina ensaia subir no obstáculo. A mãe mal olha para o lado, para repreendê-la, e a garota desce. Como a maioria das crianças, ela prefere outro caminho exclusivo, uma parte livre da calçada. A forma com que a menina encara a barricada é mais natural do que a retração passiva dos seus pais. Quando nasceu, há uns cinco anos atrás, aquela barricada já existia, a garota não conhece São Gonçalo sem o domínio completo do tráfico.


Depois de virarem a esquina em frente da segunda barricada, manilhas de concreto presas ao chão atravessadas por barras de ferro, a família consegue andar com certa liberdade. A menina ultrapassa o pai correndo, mas logo volta. Então repete esse movimento, vai e volta.

O bebê bate com as duas mãos no carrinho em um ritmo frágil e consistente que só os bebês sabem. A mãe tira a chupeta da boca dele, pra não cair, e joga no ombro presa a uma fralda de pano.


No meio da rua, no asfalto mesmo, os quatro param pra conversar um pouco. O grupo gosta do fim da tarde pra passear, o sol finge que vai se fortalecer, só que está perto de se pôr. A garota atravessa a rua e volta, com o pai de olho. A tensão nunca deixa o rosto dele, enquanto a mulher sorri abertamente por ver os filhos alegres. Depois da insistência do menino, que começa a bater forte no carrinho, eles seguem em frente e às vezes, caso se sintam seguros, retornam e repetem o trajeto de uma esquina à outra.


Bem planejado, o passeio jamais se estende até o anoitecer, mas é interrompido precocemente quando são ouvidos tiros. A família imediatamente se aproxima do muro mais próximo pra se proteger. A menina agarra a coxa do pai, que pega o filho pequeno no colo. O sorriso de felicidade da mulher se transforma em algo pálido, horrível. Seus lábios congelam em uma expressão de vergonha, de decepção pela vida, de tristeza por São Gonçalo.


Caminhando com pressa e cautela, sem correr, eles fazem o caminho inverso. Ultrapassam as barricadas e somem. Dias depois, não que seja uma regra, caso os tiroteios tenham parado, a família pode ser vista passeando de novo.

Mário Lima Jr. é escritor.





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