O buraco, por Fábio Rodrigo


Desabamento em obra do metrô na capital paulista em 2007 conhecida como o "Buraco do Serra", em alusão ao governador da época, José Serra. O acidente matou sete pessoas. Ninguém foi punido/Foto: Divulgação
Desabamento em obra do metrô na capital paulista em 2007 conhecida como o "Buraco do Serra", em alusão ao governador da época, José Serra. O acidente matou sete pessoas. Ninguém foi punido/Foto: Divulgação

Eram sete horas e a cidade despertava com um grupo de trabalhadores braçais. Todos eles chegaram munidos de utensílios de obra. Começaram então a quebrar parte do concreto de uma das principais praças da cidade. O barulho da britadeira chamou a atenção de alguns moradores e comerciantes, que foram imediatamente ao local para bisbilhotar o trabalho dos operários.


Em poucas horas, era possível ver um grande buraco bem no centro da praça. Os peões da obra não sabiam responder nada sobre o serviço. Dezenas de pessoas acercavam do grande buraco para tentar descobrir o que seria aquilo. Uns imaginavam uma simples obra de manutenção de rede fluvial; outros, bastante animados, diziam ser uma surpresinha do prefeito. Chegaram a falar até em projeto de revitalização da praça, com a construção de um grande parque aquático. Cada um dizia alguma coisa. Chegou a notícia (não se sabe se verídica ou não) de que seria a construção de um terminal rodoviário. Dessa maneira, não haveria mais lazer para os moradores. Em troca, vários ônibus ocupariam o local lançando mais monóxido de carbono na atmosfera.


Enquanto se especulavam sobre a obra misteriosa, os operários aumentavam ainda mais o buraco. Em poucos dias, o buraco tomava conta de quase metade da praça. A prefeitura, no entanto, não se pronunciava sobre nada. Numa aparição do prefeito, foram logo pra cima dele: “Sr prefeito, e o buraco?”. Ele desconversou e saiu de fininho. Dúvidas e mais dúvidas pairavam sobre o ar. O assunto do momento em todo o comércio da região era o buraco.

Semanas depois, não se viam mais trabalhadores em volta do buraco. Vários passantes olhavam para o gigantesco buraco da praça e questionavam o porquê daquilo. No ano seguinte, um novo prefeito assumiu a gestão do município. O anterior deixou o cargo sem dar explicação sobre o buraco. O novo também não falava nada. Mas o buraco estava lá. Abandonado na praça. Muitos anos depois, o buraco já não era tema das conversas diárias dos moradores. O seu esquecimento fez dele parte integrante da paisagem urbana.

Fábio Rodrigo Gomes da Costa é professor e mestre em Estudos Linguísticos.



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