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O gonçalense ainda depende demais das ruas, por Mário Lima Jr.


Foto: Leonardo Ferraz/O São Gonçalo

Um vírus mortal, extremamente contagioso, se espalhou pelo mundo há alguns meses e nas comunidades de São Gonçalo ainda são organizados eventos que geram aglomerações, como comemorações entre amigos e festivais de pipas. Nesse sábado, nove de maio, foi no bairro Raul Veiga. Crianças e adolescentes estiveram presentes com suas carretilhas, raias e cortadeiras. Domingo passado a brincadeira foi no Complexo do Salgueiro. Dez mil seiscentos e vinte e sete pessoas foram mortas no Brasil pelo coronavírus, segundo o Ministério da Saúde, mesmo assim o gonçalense se arrisca saindo de casa por diversos motivos.


De acordo com o boletim da Secretaria Municipal de Saúde, São Gonçalo contabiliza 4.347 pessoas com suspeita de COVID-19 (aumento de 300% em um mês). Cinquenta moradores do município morreram por causa da doença. No início da pandemia diziam que a COVID-19 era coisa de rico que viajou para o exterior e se contaminou por lá. Não mais. A disseminação da doença e a redução da atividade econômica causada pelo vírus são problemas que afetam principalmente os mais pobres, sem plano de saúde, renda fixa ou dinheiro guardado. Público que muitas vezes se vê obrigado a ir às ruas e que ao mesmo tempo não evita sair de casa tanto quanto deveria.


Na sexta-feira, último dia útil antes do Dia das Mães, até chips para celular e serviços de dentista eram oferecidos à multidão circulando em Alcântara. Não sendo uma emergência dentária, difícil imaginar alguém se sentando calmamente na cadeira do dentista, abrindo a boca e deixando o profissional se aproximar, sabendo que as partículas que carregam o novo coronavírus podem se manter estáveis no ar por horas. Os pacientes estariam provavelmente desinformados.


A falta de colaboração popular com a quarentena levou o prefeito José Luiz Nanci, ele próprio contaminado pelo coronavírus, a decretar o que chamou de “isolamento social rígido”. Entre os dias 11 e 15 desse mês os cidadãos estarão proibidos de circular em vias públicas, com algumas exceções óbvias. Tomar uma cerveja no bar não está entre elas. A promessa é de que Centro e Alcântara terão vigilância constante para exigir o cumprimento do decreto.


Também faz com que o gonçalense saia de casa e entre em um ônibus lotado antes do sol nascer a necessidade de sobrevivência. A economia da cidade está longe de ser informatizada ou baseada em profissões exercidas à distância. Como trabalhador formal ou informal, o gonçalense ganha o sustento da sua família na rua. Por isso foi tão bem recebida a iniciativa do Fórum São Gonçalo de criar o Camelô Solidário, loja virtual para auxiliar o camelô e o pequeno vendedor municipais.


O gonçalense em geral depende inclusive da ida ao banco para sacar dinheiro, ao mercado, sacolão e à casa lotérica para pagar suas contas. São muitos os compromissos fora de casa de uma época pré-coronavírus. Aliás, tem hortifruti da cidade recebendo pedidos pelo WhatsApp e entregando os produtos embalados na casa do cliente. São Gonçalo precisa mais do que nunca da força, criatividade e solidariedade do seu povo para se transformar e superar a crise sem adoecer ainda mais.

Mário Lima Jr. é escritor.




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